RELATO DE EXPERIÊNCIA
Cartilha educativa sobre reabilitação pós-alta da uti em Rondônia: Relato de experiência
Educational booklet on post-icu discharge rehabilitation in Rondônia: An experience report
David Crispiniano Pereira1, Alice Menezes Gomes1, Ana Keite dos Santos Prestes1, Luiz Carlos Ferreira da Silva2, Mayanne Pereira de Moura3, Michelly Pereira Bennemann4, Rodrigo Moreira Campos5, Samantha de Freitas Campos6
1Residente de Fisioterapia em Cuidados Intensivos no Adulto (RMCIA/COREMU-RO), Porto Velho, RO, Brasil
2Fisioterapeuta, Vice-Coordenador da Comissão de Residência Multiprofissional em Saúde (COREMU), Porto Velho, RO, Brasil
3Residente de Enfermagem em Cuidados Intensivos no Adulto (RMCIA/COREMU-RO), Porto Velho, RO, Brasil
4Fisioterapeuta Preceptora do Programa de Residência Multiprofissional em Cuidados Intensivos no Adulto (RMCIA/COREMU-RO), Porto Velho, RO, Brasil
5Fisioterapeuta Coordenador do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário UNISAPIENS, Porto Velho, RO, Brasil
6Coordenadora Geral da Comissão de Residências Multiprofissionais em Área Profissional da Saúde da Secretaria do Estado da Saúde de Rondônia (COREMU/SESAU-RO), Porto Velho, RO, Brasil
Recebido em: 17 de Junho de 2026; Aceito em: 4 de Julho de 2026.
Correspondência: David Crispiniano Pereira, davidcrispiniano.fisio@gmail.com
Como citar
Pereira DC, Gomes AM, Prestes AKS, Silva LCF, Moura MP, Bennemann MP, Campos RM, Campos SF. Cartilha educativa sobre reabilitação pós-alta da uti em Rondônia: Relato de experiência. Fisioter Bras. 2026;27(5):4107-4130. doi: 10.62827/fb.v27i5.1207.
Introdução: A internação em Unidade de Terapia Intensiva pode causar repercussões físicas, cognitivas, nutricionais, emocionais e funcionais duradouras, conhecidas como Síndrome Pós-UTI. A reabilitação pós-alta é processo multiprofissional essencial à recuperação funcional, sendo organizada em Rondônia pela Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência, por meio dos Centros Especializados em Reabilitação. Diante da escassez de materiais educativos sobre essa rede no estado, objetivou-se relatar a experiência de elaboração e disponibilização de uma cartilha educativa sobre reabilitação pós-alta da UTI, contextualizada aos serviços de reabilitação de Rondônia. Métodos: Trata-se de relato de experiência, desenvolvido em Porto Velho Rondônia entre abril e agosto de 2025, com duas etapas: elaboração da cartilha, a partir de levantamento documental em fontes oficiais, portarias do Ministério da Saúde, Plano de Ação Estadual da rede de cuidado à pessoa com deficiência 2024-2027); e entrega do material a pacientes internados e familiares no Hospital e Pronto-Socorro João Paulo II e na Assistência Médica Intensiva, por amostragem de conveniência, com orientação verbal complementar. Resultados: Foi elaborada cartilha de 12 páginas, abordando a Síndrome Pós-UTI, a organização da rede de cuidado em Rondônia, os centros habilitados por região de saúde (modalidades física, auditiva, intelectual e visual), a Oficina Ortopédica e orientações de cuidados domiciliares. Sessenta pessoas foram abordadas e receberam orientação verbal e exemplar impresso 30 em cada unidade de saúde. O material foi publicado nos anais da 2ª Mostra Científica da secretaria de estado da saúde de Rondônia, com DOI próprio. Conclusão: A cartilha mostrou-se ferramenta de baixo custo e fácil aplicação para disseminação de informações sobre os serviços de reabilitação do SUS em Rondônia, contribuindo para o esclarecimento dos fluxos de acesso à rede. Recomendam-se materiais audiovisuais complementares e estudos futuros com desenho quantitativo para avaliar o impacto do material sobre a busca efetiva
por reabilitação.
Palavras-chave: Acessibilidade aos Serviços de Saúde; Educação em Saúde; Serviços de Reabilitação; Sistema Único de Saúde.
Introduction: Admission to an Intensive Care Unit (ICU) can lead to lasting physical, cognitive, nutritional, emotional, and functional consequences, collectively known as Post-Intensive Care Syndrome (PICS). Post-discharge rehabilitation is a multidisciplinary process essential for functional recovery; in Rondônia, it is organized through the Care Network for People with Disabilities via Specialized Rehabilitation Centers. Given the scarcity of educational materials regarding this network in the state, the aim was to report the experience of developing and distributing an educational booklet on post-ICU rehabilitation, tailored to the rehabilitation services available in Rondônia. Methods: This is an experience report conducted in Porto Velho, Rondônia, between April and August 2025, comprising two stages: development of the booklet based on a review of official documents (Ministry of Health ordinances and the 2024–2027 State Action Plan for the Care Network for People with Disabilities); and distribution of the material to inpatients and their families at the João Paulo II Hospital and Emergency Center and the *Assistência Médica Intensiva* (AMI) unit, using a convenience sampling method accompanied by verbal guidance. Results: A 12-page booklet was produced, covering PICS, the organization of the care network in Rondônia, accredited centers by health region (addressing physical, auditory, intellectual, and visual impairments), the Orthopedic Workshop, and home care guidelines. Sixty individuals were approached and received both verbal guidance and a printed copy (30 at each health facility). The material was published in the proceedings of the 2nd Scientific Showcase of the Rondônia State Department of Health, with its own DOI. Conclusion: The booklet proved to be a low-cost, easy-to-use tool for disseminating information about SUS (Unified Health System) rehabilitation services in Rondônia, helping to clarify access pathways within the network. Complementary audiovisual materials and future studies with a quantitative design are recommended to evaluate the material’s impact on the actual pursuit
of rehabilitation.
Keywords: Health Services Accessibility; Health Education; Rehabilitation Services; Unified Health System.
A internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pode causar repercussões físicas, cognitivas, nutricionais, emocionais e funcionais importantes, condição descrita na literatura como Síndrome Pós-UTI, resultante dos efeitos cumulativos da doença crítica e das intervenções intensivas, com impacto duradouro na qualidade de vida dos pacientes a curto e a longo prazo [1].
De acordo com o Ministério da Saúde, a UTI é destinada à internação de pacientes graves que requerem atenção profissional especializada de forma contínua, materiais específicos e tecnologias necessárias ao diagnóstico, à monitorização e à terapia [2].
A reabilitação após a alta da UTI constitui processo essencial para a recuperação global do paciente crítico, com vistas à restauração da funcionalidade, da autonomia e da qualidade de vida. Trata-se de abordagem multiprofissional e contínua, que se inicia ainda na UTI e se estende aos níveis ambulatorial e domiciliar, com foco na reabilitação física, cognitiva e psicossocial; intervenções precoces, como mobilização, suporte nutricional adequado e acompanhamento psicológico, contribuem para minimizar os efeitos da Síndrome Pós-UTI e reduzir o risco de incapacidade prolongada [22].
A literatura reforça que o acompanhamento sistemático e integrado entre fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionistas e psicólogos potencializa o retorno às atividades de vida diária e melhora os desfechos funcionais [3].
A transição do cuidado intensivo para a enfermaria ou para a unidade de reabilitação exige comunicação estruturada entre as equipes, com a passagem de informações sobre o estado funcional, os déficits neurológicos, a condição nutricional e as demandas terapêuticas. Esse planejamento deve ser iniciado de forma antecipada, ainda na fase intensiva, de modo a reduzir descontinuidades no cuidado [4], em consonância com o conceito de reabilitação como processo multimodal, centrado na pessoa e colaborativo [5], corroborado por diretrizes especializadas, incluindo as diretrizes do American College of Surgeons (ACS) para o traumatismo cranioencefálico [6].
A reabilitação no estado de Rondônia é organizada por meio da Rede de Cuidados à Saúde da Pessoa com Deficiência (RCPD), que integra diferentes níveis de atenção à saúde, conforme as diretrizes da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa com Deficiência (PNAISPD). Essa rede tem como objetivo garantir que as pessoas com deficiência tenham acesso a serviços contínuos, qualificados e adequados às suas necessidades específicas, promovendo a inclusão social e a melhoria da qualidade de vida [9].
A RCPD organiza-se em três componentes principais: a Atenção Primária à Saúde, responsável pela identificação das necessidades da pessoa com deficiência, pelo acompanhamento de condições crônicas, pela prevenção de complicações e pelo encaminhamento a serviços especializados quando necessário; a Atenção Especializada Ambulatorial, núcleo central da reabilitação, na qual se inserem os Centros Especializados em Reabilitação (CERs), que oferecem atendimentos em diversas modalidades, como avaliação funcional, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, orientação psicológica e fornecimento de tecnologias assistivas; e a Atenção Especializada Hospitalar e de Urgência e Emergência, responsável pelo suporte em situações críticas ou procedimentos de alta complexidade, assegurando a continuidade do cuidado após o atendimento hospitalar [9].
O Centro Especializado em Reabilitação (CER) é um ponto de atenção ambulatorial especializado em reabilitação, cuja função primordial é realizar o diagnóstico, o tratamento, a concessão, a adaptação e a manutenção de tecnologia assistiva, sendo considerado referência para a rede de atenção à saúde em seu território [9]. Os CERs são classificados de acordo com o número de modalidades de reabilitação que oferecem em auditiva, física, intelectual, visual e múltiplas deficiências, sendo denominados CER II (duas modalidades), CER III (três modalidades) e CER IV (quatro ou mais modalidades).
O monitoramento do quantitativo de usuários atendidos mensalmente nos CERs segue parâmetros mínimos estabelecidos para cada modalidade de reabilitação, considerando tanto os usuários em processo de avaliação quanto aqueles em reabilitação, devidamente registrados no Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS), conforme apresentado no Quadro 1.
Quadro 1 – Quantitativos mínimos mensais de produtividade por modalidade de reabilitação nos CERs
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Modalidade de reabilitação |
Quantitativo mínimo de usuários/mês |
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Reabilitação Auditiva |
150 |
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Reabilitação Física |
200 |
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Reabilitação Intelectual |
200 |
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Reabilitação Visual |
150 |
Fonte: Elaborado pelos autores.
O estado de Rondônia conta atualmente com Centros Especializados em Reabilitação distribuídos em seis das sete regiões de saúde, com diferentes níveis de gestão (estadual, municipal e filantrópica) e diferentes combinações de modalidades habilitadas, conforme sintetizado no Quadro 2. Todas as habilitações de CER mencionadas neste relato decorrem de portarias do Gabinete do Ministro da Saúde (GM/MS), de âmbito federal, ressalvadas as exceções indicadas no próprio quadro.
Quadro 2 – Centros Especializados em Reabilitação (CER) habilitados no estado de Rondônia, por região de saúde
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Região de saúde |
Unidade / município |
Gestão |
Modalidades (classificação) |
Base normativa (esfera) |
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Madeira-Mamoré |
Hospital e Casa de Saúde Santa Marcelina (Porto Velho) |
Filantrópica conveniada ao SUS |
Física e Auditiva (CER II) e Oficina Ortopédica |
Portarias GM/MS nº 1.357/2013 e nº 3.010/2013 (federais)14,15 |
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Madeira-Mamoré |
Centro Especializado em Reabilitação de Rondônia – CERO (Porto Velho) |
Estadual |
Auditiva, Física e Intelectual, com núcleo TEA (CER III) |
Portaria GM/MS nº 8.189/2025 (federal)16 |
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Madeira-Mamoré |
Centro de Reabilitação Dream da Amazônia (Porto Velho) |
Filantrópica, sem fins lucrativos |
Auditiva, Física, Intelectual e Visual (CER IV) |
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Madeira-Mamoré |
Centro de Fisioterapia / CER (Porto Velho) |
Municipal |
Física e Intelectual (CER II) |
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Vale do Jamari |
CER Belmira Araújo (Ariquemes) |
Municipal |
Física e Visual, ampliado para Auditiva (CER III) |
Portarias GM/MS nº 1.357/2013 e nº 3.554/2020 (federais)14,17 |
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Zona da Mata |
Centro de Reabilitação Municipal Dr. Francisco Pinheiro Filho (Rolim de Moura) |
Municipal |
Física e Intelectual (CER II) |
Portaria GM/MS nº 3.010/2013 (federal)15 |
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Central e Vale do Guaporé |
Centro de Reabilitação Física e Auditiva de Ji-Paraná |
Municipal |
Auditiva, Física e Intelectual (CER III) |
Portaria GM/MS nº 4.428/2018 (federal)18 |
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Região do Café |
Centro de Reabilitação Física de Cacoal |
Municipal |
Física, Intelectual e TEA (CER II) |
Portaria GM/MS nº 1.357/2013 (federal)14 |
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Cone Sul |
CER Dr. Nazareno João da Silva (Vilhena) |
Municipal |
Auditiva, Física, Intelectual e Visual (CER IV) |
Portaria GM/MS nº 1.357/2013 (federal)14 |
Fonte: Elaborado pelos autores.
No componente da região de saúde Madeira-Mamoré, destaca-se o CER II do Hospital e Casa de Saúde Santa Marcelina, que conta com equipe multiprofissional composta por médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e assistentes sociais, ainda que o quantitativo e a carga horária de alguns profissionais não atendam integralmente às recomendações dos instrutivos de reabilitação, e que realiza, em conjunto com os equipamentos e a infraestrutura disponíveis, o atendimento de aproximadamente 1.400 pacientes por mês, abrangendo a população de Porto Velho e de municípios de toda a região.
O CERO é uma entidade pública de gestão estadual, localizada em Porto Velho (CNES: 7606699), que retomou suas atividades de reabilitação em 2022, após interrupção em 2020 em decorrência da pandemia de Covid-19, período em que funcionou como Hospital de Campanha. O CERO oferta reabilitação nas modalidades auditiva, física e intelectual, configurando-se como CER III, e inclui núcleo de atendimento a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O serviço desempenha papel relevante na dispensação de Meios Auxiliares de Locomoção no estado, atribuição regulamentada pela Resolução estadual nº 117/2022/CAIS-GPES, de 27 de janeiro de 202319. Até a elaboração deste relato, o CERO habilitação como CER III em 2025.
O Centro de Reabilitação Dream da Amazônia (CER IV), entidade filantrópica sem fins lucrativos inaugurada em abril de 2023, atende pessoas com deficiência auditiva, física, intelectual, visual e múltiplas deficiências, com abrangência estadual. A unidade conta com equipe multidisciplinar ampla, incluindo médicos de diferentes especialidades (neuropediatria, psiquiatria, otorrinolaringologia, oftalmologia, fisiatria, clínica geral, ortopedia e pediatria), além de psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, nutricionistas, pedagogos e assistentes sociais, voltada especialmente ao atendimento de crianças com TEA e outras limitações no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo com início antes dos 18 anos de idade.
Na região do Vale do Jamari, o CER Belmira Araújo, de gestão municipal (Ariquemes, CNES: 5924375), foi inicialmente habilitado como CER II nas modalidades física e visual e teve a modalidade auditiva incorporada posteriormente. Na região Zona da Mata, o Centro de Reabilitação Municipal Dr. Francisco Pinheiro Filho (Rolim de Moura, CNES: 7217765) atua nas modalidades física e intelectual, com equipe multidisciplinar e acesso por meio de agenda local e encaminhamento das unidades de saúde da região.
Na região Central e Vale do Guaporé, o Centro de Reabilitação Física e Auditiva de Ji-Paraná (CNES: 3401812) oferece transporte sanitário em veículos adaptados para garantir o acesso da pessoa com deficiência aos pontos de atenção da rede; o município dispõe ainda de Oficina Ortopédica Fixa cuja estrutura física está concluída e que se encontra em processo de aquisição de materiais, equipamentos e credenciamento de recursos humanos. Na região do Café, o Centro de Reabilitação Física de Cacoal (CNES: 5684471) iniciou efetivamente suas atividades em maio de 2016, embora o incentivo federal correspondente esteja atualmente suspenso, e conta com equipe ampla voltada também à reabilitação pediátrica.
Por fim, na região Cone Sul, o CER Dr. Nazareno João da Silva (Vilhena, CNES: 2789388), habilitado como CER IV, recebe profissionais de programas de residência multiprofissional nas áreas de Saúde Mental, Urgência/Trauma, Reabilitação e Atenção Básica/Saúde da Família, contribuindo para a formação desses profissionais e para a capacidade instalada da equipe. A modalidade visual, entretanto, ainda não é realizada de forma integral, em razão de déficit de profissionais.
A relevância do presente relato justifica-se pela escassez de materiais educativos voltados especificamente à orientação sobre a rede de reabilitação pós-alta hospitalar no contexto de Rondônia, estado que apresenta limitações na distribuição geográfica e na diversidade de serviços especializados. A disseminação de informações em linguagem acessível pode favorecer o empoderamento de pacientes e familiares na tomada de decisão quanto à continuidade do cuidado [7], bem como contribuir para a prevenção de complicações associadas à descontinuidade assistencial e à reinternação precoce de pacientes egressos de unidades intensivas [8].
Diante desse contexto, o presente estudo teve como objetivo relatar a experiência de elaboração e disponibilização de uma cartilha educativa sobre a reabilitação pós-alta da Unidade de Terapia Intensiva, contextualizada à Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência e aos serviços de reabilitação do estado de Rondônia, com a finalidade de apresentar os serviços disponível
no estado.
Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido no município de Porto Velho, Rondônia, no período de abril a agosto de 2025. O estudo contemplou duas etapas sequenciais: elaboração da cartilha, e entrega aos participantes.
A elaboração do material educativo foi realizada a partir de levantamento documental e consulta a fontes oficiais, incluindo os sítios eletrônicos das Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, portais governamentais, o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e a legislação pertinente. Foram também consultados o Plano de Ação Estadual da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência (RCPD) do quadriênio 2024-2027 do estado de Rondônia e as diretrizes da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa com Deficiência (PNAISPD), com o objetivo de contextualizar os serviços identificados dentro das políticas públicas vigentes [9]. Após a coleta, as informações foram sistematizadas e organizadas com foco na acessibilidade do conteúdo para o público em geral, resultando em material impresso elaborado em linguagem clara e objetiva, com recursos gráficos e ilustrações que facilitam a compreensão dos dados.
Foram selecionadas informações relativas à localização, aos tipos de serviços ofertados, ao público-alvo, às formas de acesso e ao contato de cada centro de referência identificado no levantamento documental, priorizando dados que orientassem diretamente pacientes e familiares quanto ao fluxo de acesso aos serviços de reabilitação do SUS.
A população do estudo foi constituída por pacientes internados e seus acompanhantes/familiares nas unidades de internação do Hospital e Pronto-Socorro João Paulo II e na Assistência Médica Intensiva (AMI), em Porto Velho, durante o mês de julho de 2025. A seleção dos participantes ocorreu por amostragem de conveniência, sendo incluídas todas as pessoas presentes nas unidades durante os turnos de aplicação que aceitaram receber a orientação e/ou o material impresso e participar da avaliação. Não foram estabelecidos critérios de exclusão além da recusa em participar da avaliação.
Ao longo do período de aplicação, 60 pessoas foram abordadas e receberam orientação verbal sobre os cuidados pós-alta da UTI e sobre os serviços de reabilitação do SUS, das quais 60 também receberam exemplar impresso da cartilha (30 na AMI e 30 no HB). A distribuição ocorreu em julho de 2025, com explicações individuais realizadas pelos residentes de fisioterapia e enfermagem, abordando aspectos como a reabilitação funcional, os serviços disponíveis nos CERs, o funcionamento da Oficina Ortopédica e o fluxo de encaminhamento para acesso aos materiais disponibilizados pelo SUS.
O presente relato caracteriza-se como atividade de natureza pedagógica e assistencial, desenvolvida no âmbito do Programa de Residência Multiprofissional em Cuidados Intensivos no Adulto (RMCIA), sem finalidade de pesquisa científica voltada à generalização de resultados. Conforme o art. 1º, parágrafo único, incisos VII e VIII, da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde [12], atividades que objetivam o aprofundamento teórico de situações decorrentes da prática profissional, bem como atividades realizadas exclusivamente com finalidade de educação, ensino ou treinamento por profissionais em especialização, sem finalidade de pesquisa científica, não são registradas nem avaliadas pelo sistema CEP/CONEP. Por essa razão, o presente trabalho não foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa.
A cartilha educativa elaborada no presente estudo foi organizada em 12 páginas, estruturadas em linguagem acessível e com recursos gráficos ilustrativos, reunindo as principais informações necessárias à continuidade do cuidado após a alta da Unidade de Terapia Intensiva. O material aborda: o conceito e as consequências da Síndrome Pós-UTI; a apresentação da Rede de Cuidados à Saúde da Pessoa com Deficiência (RCPD) e sua organização no estado de Rondônia; a identificação e localização dos Centros Especializados em Reabilitação (CERs) habilitados nas diferentes regiões de saúde do estado, com descrição das modalidades ofertadas — reabilitação física, auditiva, intelectual e visual —, formas de acesso e contatos institucionais; informações sobre a Oficina Ortopédica do SUS, com orientações sobre o processo de solicitação de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção; o fluxo de encaminhamento para os serviços de reabilitação disponíveis na rede pública; e orientações gerais ao paciente egresso da UTI quanto aos cuidados domiciliares, sinais de alerta e importância da adesão ao acompanhamento ambulatorial.
As páginas da cartilha estão reproduzidas integralmente nas Figuras 1 a 12 a seguir.
Figura 1 – Capa com mapa de Rondônia e CERs por região.
Fonte: Autores, 2025.
Figura 2 – Mensagem aos familiares e sequelas da UTI.
Fonte: Autores, 2025.
Figura 3 – O que é um CER, tipos CER II/III/IV.
Fonte: Autores, 2025.
Figura 4 – Lista CERs parte 1: Porto Velho e Ariquemes.
Fonte: Autores, 2025.
Figura 5 – Lista CERs parte 2: Ji-Paraná, Rolim de Moura, Cacoal e Vilhena.
Fonte: Autores, 2025.
Figura 6 – Oficina Ortopédica: materiais e quem deve procurar
Fonte: Autores, 2025.
Figura 7 – Localização da Oficina e documentação para solicitar (com QR Code da APAC)
Fonte: Autores, 2025.
Figura 8 – Reabilitação auditiva, intelectual e visual nos CERs
Fonte: Autores, 2025.
Figura 9 – Ostomias pós-UTI: direitos, materiais e fluxo de acesso
Fonte: Autores, 2025.
Figura 10 – Onde solicitar/retirar materiais e sinais de alerta
Fonte: Autores, 2025.
Figura 11 – QR Codes para documentos oficiais do Ministério da Saúde
Fonte: Autores, 2025.
Figura 12 – Ficha técnica com autoria RMCIA/COREMU-RO
Fonte: Autores, 2025.
A cartilha foi apresentada e publicada nos anais da 2ª Mostra Científica, realizada pela Secretaria de Estado da Saúde de Rondônia e pelo Instituto Estadual de Educação em Saúde Pública de Rondônia, em agosto de 2025. Sua publicação, registrada sob o DOI 10.47094/978-65-284-0427-8/9, ampliou a disseminação do material e favoreceu sua apreciação por profissionais da saúde, contribuindo para a divulgação do conhecimento e para o fortalecimento de práticas assistenciais voltadas à reabilitação e ao cuidado à pessoa com deficiência no estado de Rondônia.
A entrega da cartilha ocorreu em duas unidades de referência de Porto Velho — o Hospital e Pronto-Socorro João Paulo II e a Assistência Médica Intensiva (AMI) —, contemplando pacientes internados e seus acompanhantes/familiares no período pós-alta da UTI. A escolha dessas unidades justifica-se por concentrarem parcela relevante da demanda por cuidados intensivos no estado, o que amplia o potencial de alcance do material entre pacientes em transição do ambiente hospitalar para o domiciliar.
A experiência demonstrou que materiais educativos direcionados a pacientes e familiares podem contribuir para o fortalecimento da autonomia do cuidado, promovendo maior engajamento no acompanhamento pós-alta e adesão às orientações terapêuticas. Estudos indicam que intervenções educativas estruturadas podem reduzir complicações decorrentes da descontinuidade do cuidado e aumentar a satisfação de pacientes e familiares com o serviço de saúde [8]. No contexto de Rondônia, a cartilha pode cumprir um papel estratégico, especialmente em razão da dificuldade de acesso a serviços especializados de reabilitação em áreas mais remotas [9].
A ação de orientar pacientes em transição do ambiente hospitalar para outro serviço encontra suporte na Portaria GM/MS nº 825/2016 [21], que recomenda a articulação entre os pontos de atenção e a reabilitação pós-alta como estratégia para a continuidade do cuidado. Nesse sentido, a entrega da cartilha nas duas unidades contribuiu não apenas para o acesso à informação, mas também para a promoção de melhores desfechos funcionais, ao facilitar a busca ativa pelos serviços de reabilitação do SUS.
Este relato apresenta limitações que devem ser consideradas. A entrega da cartilha restringiu-se a duas unidades de referência em Porto Velho, o que limita a representatividade em relação a outras regiões de saúde do estado. Não foi realizada avaliação de seguimento (follow-up) capaz de verificar se o conhecimento veiculado se traduziu em busca efetiva pelos serviços de reabilitação, tampouco avaliação quantitativa formal do impacto da cartilha sobre o desfecho funcional dos pacientes, aspectos que poderão ser explorados em estudos futuros com delineamento mais robusto.
Considerações Finais
A experiência relatada sugere que a cartilha pode representar uma possível ferramenta de baixo custo e fácil aplicação para a disseminação de informações pertinentes aos centros de reabilitação, com potencial para contribuir para o conhecimento de pacientes e familiares sobre os serviços de reabilitação oferecidos pela rede SUS em Rondônia.
Considerando o panorama assistencial do estado de Rondônia, marcado por limitações na distribuição e na diversidade dos Centros Especializados em Reabilitação, a cartilha contribui para esclarecer os fluxos de atendimento e estimular o uso adequado dos serviços disponíveis na rede de atenção à saúde. Destaca-se, contudo, a necessidade de ampliação e fortalecimento dos serviços especializados, de modo a garantir atendimento integral e equitativo à população com deficiência e com necessidades de reabilitação.
Como desdobramentos futuros, recomenda-se a elaboração de material audiovisual complementar, voltado a pessoas com dificuldades de leitura ou deficiência visual, a ampliação da divulgação do material, bem como a realização de estudos com delineamento quantitativo e amostra mais ampla que avaliem, de forma sistemática, o impacto da cartilha sobre o conhecimento e a busca efetiva pelos serviços de reabilitação pelos pacientes egressos da UTI.
Conflitos de Interesse
Os autores declaram não haver conflito de interesse.
Financiamento
Não houve financiamento.
Contribuição dos autores
Concepção e desenho da pesquisa: Pereira DC, Gomes AM, Prestes AKS; Redação do manuscrito: Pereira DC; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Silva LCF, Moura MP, Bennemann MP, Campos RM, Campos SF.
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