Fisioter Bras. 2026;27(10): 6749- 6774
doi: 10.62827/fb.v27i10.1363

REVISÃO

Fisioterapia na mielopatia associada ao vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1: Revisão narrativa

Physical therapy in human T-lymphotropic virus type 1-associated myelopathy: A narrative review

Paulo Eugênio Monteiro Pessoa1, Letícia Fonseca Corcetti2, Rafael Ferreira Calil3, Henrique Weber Antonini4

1Médico, RQE 70333 Hospital Evangélico de Belo Horizonte, Belo Horizonte, MG, Brasil

2Faculdade de Minas (FAMINAS), Belo Horizonte, MG, Brasil

3Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil

4Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Belo Horizonte, MG, Brasil

Recebido em: 16 de Outubro de 2026; Aceito em: 22 de Outubro de 2026.

Correspondência: Paulo Eugênio Monteiro Pessoa, pauloeugenio.pericia@gmail.com

Como citar

Pessoa PEM, Corcetti LF, Calil RF, Antonini HW. Fisioterapia na mielopatia associada ao vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1: Revisão narrativa. Fisioter Bras. 2026;27(10): 6749- 6774. doi: 10.62827/fb.v27i10.1363.

Resumo

A mielopatia associada ao vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1 compromete progressivamente a marcha, o equilíbrio e a função vesical, e a fisioterapia é indicada sem que a certeza da evidência que a sustenta tenha sido graduada para o conjunto das intervenções. Esta revisão narrativa teve como objetivo identificar as intervenções fisioterapêuticas avaliadas em adultos com essa mielopatia e analisar seus efeitos, e a certeza da evidência que os sustenta, sobre a marcha, a mobilidade, o equilíbrio e desfechos secundários. Cinco bases de dados foram consultadas em outubro de 2026, sem restrição de idioma; o risco de viés de cada estudo foi avaliado, e a certeza da evidência dos ensaios randomizados foi graduada por comparação e desfecho, sem metanálise. Foram incluídos 19 estudos brasileiros: dez ensaios randomizados e nove estudos sem grupo controle, todos com risco de viés alto ou com algumas preocupações. Todas as comparações graduadas tiveram certeza muito baixa, inclusive a da realidade virtual frente à ausência de intervenção, cujo efeito sobre a mobilidade e a marcha permanece incerto. Nos ensaios de exercício domiciliar, Pilates, facilitação neuromuscular proprioceptiva, eletroestimulação pélvica e neuromodulação, as melhoras relatadas vieram sobretudo de comparações dentro dos grupos, e os estudos sem grupo controle apenas descreveram mudanças após a intervenção. Nenhum dos estudos incluídos mediu quedas como desfecho comparativo, e apenas quatro registraram eventos adversos com método descrito. A evidência caracteriza os resultados relatados e suas limitações, mas não permite estabelecer a direção nem a magnitude dos efeitos, nem sua segurança.

Palavras-chave: Paraparesia Espástica Tropical; Vírus Linfotrópico T Tipo 1 Humano; Modalidades de Fisioterapia; Terapia por Exercício.

Abstract

Human T-lymphotropic virus type 1-associated myelopathy progressively impairs gait, balance and bladder function, and physical therapy is indicated although the certainty of the supporting evidence has not been graded for the set of interventions. This narrative review aimed to identify the physical therapy interventions evaluated in adults with this myelopathy and to analyze their effects, and the certainty of the supporting evidence, on gait, mobility, balance and secondary outcomes. Five databases were searched in October 2026 without language restriction; the risk of bias of each study was assessed, and the certainty of the evidence from randomized trials was graded per comparison and outcome, without meta-analysis. Nineteen Brazilian studies were included: ten randomized trials and nine studies without a control group, all at high risk of bias or with some concerns. All graded comparisons had very low certainty, including virtual reality compared with no intervention, whose effect on mobility and gait remains uncertain. In the trials of home-based exercise, Pilates, proprioceptive neuromuscular facilitation, pelvic floor electrical stimulation and neuromodulation, the reported improvements came mostly from within-group comparisons, and the studies without a control group only described changes after the intervention. None of the included studies measured falls as a comparative outcome, and only four recorded adverse events with a described method. The evidence characterizes the reported results and their limitations, but does not establish the direction or magnitude of the effects, or their safety.

Keywords: Paraparesis; Human T-lymphotropic virus 1; Physical Therapy Modalities; Exercise Therapy.

Introdução

Estima-se que 5 a 10 milhões de pessoas vivam com o vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1 (HTLV-1) no mundo, número que os próprios autores da estimativa consideram provavelmente subestimado [1]. A mielopatia associada ao HTLV-1, ou paraparesia espástica tropical (HAM/TSP, do inglês HTLV-1-associated myelopathy/tropical spastic paraparesis), ocorre em cerca de 3% das pessoas infectadas; o risco relatado ao longo da vida vai de 0,25% no Japão a valores muito acima de 3% no Brasil [2]. No Brasil, a soroprevalência em doadores de sangue variou de 0,04% a 1% conforme a região, maior no Norte e no Nordeste, e Salvador é apontada como a cidade brasileira de maior prevalência [1]. Esses valores vêm sobretudo de doadores de sangue e gestantes e não estimam a prevalência na população geral.

A HAM/TSP tem cinco sintomas cardinais: rigidez ou fraqueza dos membros inferiores, dor lombar, disfunção vesical, disfunção intestinal e disfunção sexual. A evolução é crônica e progressiva, e metade das pessoas passa a depender de cadeira de rodas em até 20 anos do início dos sintomas, com grande variação entre indivíduos [2]. O processo é descrito como desmielinização e degeneração axonal decorrentes de inflamação com infiltrado mononuclear na medula espinal, com redução da capacidade sensitiva e motora [3]. A justificativa da fisioterapia está nessas consequências funcionais, como fraqueza, espasticidade, dor, alterações da marcha e do equilíbrio e disfunção vesical, e não na modificação do processo de base [3].

O consenso da International Retrovirology Association de 2019 revisou as terapias modificadoras da doença e julgou baixa a qualidade da evidência disponível. Sobre a fisioterapia, afirmou que o manejo sintomático e as terapias físicas podem melhorar a função e a qualidade de vida sem alterar a história natural, mas não revisou a evidência que sustenta essa afirmação [2].

As revisões narrativas sobre fisioterapia no HTLV-1 descreveram os ensaios sem avaliação padronizada do risco de viés nem graduação da certeza da evidência [3,4]. Entre as revisões sistemáticas recuperadas, uma reuniu intervenções não farmacológicas na HAM/TSP com busca até dezembro de 2021, apenas artigos em inglês e avaliação da qualidade pela escala de Jadad [5]; outra graduou a certeza, mas tratou do exercício para dor ou fadiga após infecções virais em geral e incluiu três estudos com HTLV-1 [6]; uma terceira, sobre exercício domiciliar em doenças neurológicas, não incluiu estudo com HAM/TSP [7]. Diante dessas sínteses, a contribuição pretendida aqui é a apreciação crítica, restrita à HAM/TSP, de cada intervenção e de seus desfechos, com avaliação do risco de viés por domínios e graduação da certeza por comparação e desfecho. O objetivo desta revisão foi identificar as intervenções fisioterapêuticas avaliadas em adultos com HAM/TSP e analisar seus efeitos, e a certeza da evidência que os sustenta, sobre a marcha, a mobilidade e o equilíbrio, incluindo quedas, e sobre força, espasticidade, dor, funcionalidade, sintomas urinários, qualidade de vida e eventos adversos.

Métodos

Trata-se de revisão narrativa com busca estruturada, avaliação do risco de viés de cada estudo e graduação da certeza da evidência por comparação e desfecho. A classificação como narrativa decorre da forma de síntese, feita em texto por eixo de intervenção, e de restrições de identificação e seleção que limitam a abrangência: os textos completos foram recuperados apenas em acesso aberto, e registros sem resumo foram julgados pelo título.

Quais intervenções fisioterapêuticas foram avaliadas em adultos com HAM/TSP, quais são seus efeitos e com que certeza da evidência, sobre marcha, mobilidade e equilíbrio, força, espasticidade, dor, funcionalidade, sintomas urinários, qualidade de vida e eventos adversos? As intervenções abrangeram a fisioterapia em qualquer modalidade (exercício terapêutico, treino de marcha e equilíbrio, hidroterapia, eletroestimulação, fisioterapia pélvica, fisioterapia respiratória, órteses e dispositivos auxiliares, telerreabilitação e programas domiciliares), comparada a cuidado habitual, outra intervenção, nenhuma intervenção ou sem grupo de comparação. Os estudos com grupo de comparação aleatorizado permitem estimar efeitos comparativos; os estudos sem grupo controle permitem apenas descrever mudanças após a intervenção, sem atribuí-las a ela, e foram apresentados e interpretados à parte. Os desfechos primários foram marcha, mobilidade e equilíbrio, incluindo quedas. A neuromodulação não invasiva (estimulação transcraniana por corrente contínua e estimulação vestibular galvânica) foi incluída como eixo complementar, analisado e rotulado à parte.

As buscas foram executadas em 15 de outubro de 2026 no MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online), pelo PubMed; na Cochrane Library (revisões e Registro Central de Ensaios Controlados, CENTRAL); na PEDro (Physiotherapy Evidence Database); e na LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), pelo Portal Regional da Biblioteca Virtual em Saúde. No SciELO (Scientific Electronic Library Online), cujo serviço de busca não retornou resultados nesse dia, a busca foi executada em 16 de outubro de 2026. As estratégias combinaram um bloco da condição e uma das intervenções, com descritores MeSH (Medical Subject Headings) no PubMed e na Cochrane Library, DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) na LILACS e palavras livres. Na LILACS, o bloco da condição usou descritores e os campos de título e resumo, porque o campo de palavras do texto incluía sinônimos antigos do vírus da imunodeficiência humana. Na PEDro, base dedicada à fisioterapia, usaram-se só os termos da condição. As sintaxes literais, os campos e os registros de cada base estão no Quadro 1.

Quadro 1 – Estratégias de busca por base, sem filtro de idioma, data ou delineamento.

Base (interface; data)

Descritores controlados

Sintaxe literal (campos)

Registros

MEDLINE (PubMed; 15/10/2026)

MeSH: Paraparesis, Tropical Spastic; HTLV-I Infections; Human T-lymphotropic virus 1; Physical Therapy Modalities; Exercise Therapy; Exercise; Rehabilitation; Electric Stimulation Therapy; Transcranial Direct Current Stimulation; Transcranial Magnetic Stimulation; Virtual Reality; Exercise Movement Techniques; Massage; Muscle Stretching Exercises; Pelvic Floor

(“Paraparesis, Tropical Spastic”[Mesh] OR “HTLV-I Infections”[Mesh] OR “Human T-lymphotropic virus 1”[Mesh] OR “tropical spastic paraparesis”[tiab] OR “HTLV-associated myelopathy”[tiab] OR “HTLV-1-associated myelopathy”[tiab] OR “HTLV-I-associated myelopathy”[tiab] OR “HAM/TSP”[tiab] OR HTLV-1[tiab] OR HTLV-I[tiab] OR HTLV1[tiab] OR “human T-lymphotropic virus”[tiab] OR “human T-cell lymphotropic virus”[tiab] OR “human T-cell leukemia virus type 1”[tiab] OR “human T-cell leukemia virus type I”[tiab]) AND (“Physical Therapy Modalities”[Mesh] OR “Exercise Therapy”[Mesh] OR “Exercise”[Mesh] OR “Rehabilitation”[Mesh] OR “Electric Stimulation Therapy”[Mesh] OR “Transcranial Direct Current Stimulation”[Mesh] OR “Transcranial Magnetic Stimulation”[Mesh] OR “Virtual Reality”[Mesh] OR “Exercise Movement Techniques”[Mesh] OR “Massage”[Mesh] OR “Muscle Stretching Exercises”[Mesh] OR “Pelvic Floor”[Mesh] OR physiotherap*[tiab] OR “physical therapy”[tiab] OR “physical therapies”[tiab] OR rehabilitat*[tiab] OR exercis*[tiab] OR training[tiab] OR hydrotherap*[tiab] OR aquatic[tiab] OR “electrical stimulation”[tiab] OR electrostimulation[tiab] OR TENS[tiab] OR transcutaneous[tiab] OR “transcranial direct current”[tiab] OR tDCS[tiab] OR “transcranial magnetic”[tiab] OR rTMS[tiab] OR “galvanic vestibular”[tiab] OR neuromodulation[tiab] OR “virtual reality”[tiab] OR Pilates[tiab] OR massage[tiab] OR stretching[tiab] OR “proprioceptive neuromuscular facilitation”[tiab] OR kinesio*[tiab] OR hippotherap*[tiab] OR vibration[tiab] OR “pelvic floor”[tiab] OR “inspiratory muscle”[tiab] OR “physical activity”[tiab] OR biofeedback[tiab] OR “motor imagery”[tiab] OR orthos*[tiab] OR orthotic*[tiab])

163

Cochrane Library (Search Manager; 15/10/2026)

MeSH: os três da condição e os doze das intervenções usados no PubMed

#1 [mh “Paraparesis, Tropical Spastic”]; #2 [mh “HTLV-I Infections”]; #3 [mh “Human T-lymphotropic virus 1”]; #4 (“tropical spastic paraparesis” OR “HTLV-associated myelopathy” OR “HTLV-1-associated myelopathy” OR “HTLV-I-associated myelopathy” OR “HAM/TSP” OR HTLV-1 OR HTLV-I OR HTLV1 OR “human T-lymphotropic virus” OR “human T-cell lymphotropic virus” OR “human T-cell leukemia virus”):ti,ab,kw; #5 #1 OR #2 OR #3 OR #4; #6 [mh “Physical Therapy Modalities”]; #7 [mh Rehabilitation]; #8 [mh “Exercise Therapy”]; #9 [mh Exercise]; #10 [mh “Electric Stimulation Therapy”]; #11 [mh “Transcranial Direct Current Stimulation”]; #12 [mh “Transcranial Magnetic Stimulation”]; #13 [mh “Virtual Reality”]; #14 [mh “Exercise Movement Techniques”]; #15 [mh Massage]; #16 [mh “Muscle Stretching Exercises”]; #17 [mh “Pelvic Floor”]; #18 (physiotherap* OR “physical therapy” OR “physical therapies” OR rehabilitat* OR exercis* OR training OR hydrotherap* OR aquatic OR “electrical stimulation” OR electrostimulation OR TENS OR transcutaneous OR “transcranial direct current” OR tDCS OR “transcranial magnetic” OR rTMS OR “galvanic vestibular” OR neuromodulation OR “virtual reality” OR Pilates OR massage OR stretching OR “proprioceptive neuromuscular facilitation” OR kinesio* OR hippotherap* OR vibration OR “pelvic floor” OR “inspiratory muscle” OR “physical activity” OR biofeedback OR “motor imagery” OR orthos* OR orthotic*):ti,ab,kw; #19 #6 OR #7 OR ... OR #18 (união das linhas #6 a #18; assim abreviada no registro da busca); #20 #5 AND #19

31 (CENTRAL 31; revisões 0)

PEDro (Advanced Search; 15/10/2026)

não se aplica

HTLV* (4); HAM/TSP (5); lymphotropic (2); paraparesis (8), no campo Abstract & Title; união sem repetição

10

LILACS (Portal Regional da Biblioteca Virtual em Saúde, filtro de base LILACS; 15/10/2026)

DeCS: Paraparesia Espástica Tropical; Infecções por HTLV-I; Vírus Linfotrópico T Tipo 1 Humano; Modalidades de Fisioterapia; Terapia por Exercício; Exercício Físico; Reabilitação; Terapia por Estimulação Elétrica; Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua; Estimulação Magnética Transcraniana; Realidade Virtual; Técnicas de Exercício e de Movimento; Massagem; Exercícios de Alongamento Muscular; Diafragma da Pelve

(mh:”Paraparesia Espástica Tropical” OR mh:”Infecções por HTLV-I” OR mh:”Vírus Linfotrópico T Tipo 1 Humano” OR ti:HTLV* OR ab:HTLV* OR ti:”paraparesia espástica tropical” OR ab:”paraparesia espástica tropical” OR ti:”tropical spastic paraparesis” OR ab:”tropical spastic paraparesis” OR ti:”HAM/TSP” OR ab:”HAM/TSP” OR ti:linfotrópico OR ab:linfotrópico OR ti:lymphotropic OR ab:lymphotropic) AND (mh:”Modalidades de Fisioterapia” OR mh:”Terapia por Exercício” OR mh:”Exercício Físico” OR mh:”Reabilitação” OR mh:”Terapia por Estimulação Elétrica” OR mh:”Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua” OR mh:”Estimulação Magnética Transcraniana” OR mh:”Realidade Virtual” OR mh:”Técnicas de Exercício e de Movimento” OR mh:”Massagem” OR mh:”Exercícios de Alongamento Muscular” OR mh:”Diafragma da Pelve” OR tw:fisioterap* OR tw:physiotherap* OR tw:”physical therapy” OR tw:”terapia física” OR tw:exercis* OR tw:exercíc* OR tw:exercic* OR tw:ejercicio* OR tw:reabilita* OR tw:rehabilit* OR tw:treinamento OR tw:training OR tw:entrenamiento OR tw:hidroterap* OR tw:hydrotherap* OR tw:aquátic* OR tw:aquatic* OR tw:eletroterap* OR tw:electroterap* OR tw:electrotherap* OR tw:”estimulação elétrica” OR tw:”electrical stimulation” OR tw:”estimulación eléctrica” OR tw:TENS OR tw:transcutâne* OR tw:transcutane* OR tw:transcranian* OR tw:transcraneal OR tw:transcranial OR tw:tDCS OR tw:rTMS OR tw:neuromodula* OR tw:”realidade virtual” OR tw:”virtual reality” OR tw:”realidad virtual” OR tw:pilates OR tw:massag* OR tw:masaje* OR tw:alongamento* OR tw:stretching OR tw:estiramiento* OR tw:”facilitação neuromuscular” OR tw:”facilitación neuromuscular” OR tw:”proprioceptive neuromuscular” OR tw:cinesio* OR tw:kinesio* OR tw:equoterap* OR tw:hipoterap* OR tw:hippotherap* OR tw:vibra* OR tw:”assoalho pélvico” OR tw:”pelvic floor” OR tw:”suelo pélvico” OR tw:”atividade física” OR tw:”physical activity” OR tw:”actividad física” OR tw:biofeedback OR tw:órtese* OR tw:ortese* OR tw:ortesis OR tw:orthos* OR tw:orthotic*) (mh: descritor; ti: título; ab: resumo; tw: palavras do texto)

56

SciELO (search.scielo.org, todos os índices; 16/10/2026)

não se aplica

(HTLV* OR “tropical spastic paraparesis” OR “paraparesia espastica tropical” OR “HTLV-associated myelopathy” OR “mielopatia associada ao HTLV” OR “HAM/TSP” OR “human T-lymphotropic virus” OR “human T-cell lymphotropic virus” OR “virus linfotropico” OR “linfotropico de celulas T”) AND (fisioterap* OR physiotherap* OR “physical therapy” OR “terapia fisica” OR exercis* OR exercic* OR ejercicio* OR reabilita* OR rehabilit* OR treinamento OR training OR entrenamiento OR hidroterap* OR hydrotherap* OR aquatic* OR eletroterap* OR electroterap* OR electrotherap* OR “estimulacao eletrica” OR “electrical stimulation” OR “estimulacion electrica” OR TENS OR transcutane* OR transcranian* OR transcraneal OR transcranial OR tDCS OR rTMS OR neuromodula* OR “realidade virtual” OR “virtual reality” OR “realidad virtual” OR pilates OR massag* OR masaje* OR alongamento* OR stretching OR estiramiento* OR “facilitacao neuromuscular” OR “facilitacion neuromuscular” OR “proprioceptive neuromuscular” OR cinesio* OR kinesio* OR equoterap* OR hipoterap* OR hippotherap* OR vibrat* OR vibrac* OR “assoalho pelvico” OR “pelvic floor” OR “suelo pelvico” OR “atividade fisica” OR “physical activity” OR “actividad fisica” OR biofeedback OR ortese* OR ortesis OR orthos* OR orthotic*)

30

Total

290 (226 após remover 64 duplicatas)

Legenda: MeSH: Medical Subject Headings; DeCS: Descritores em Ciências da Saúde; CENTRAL: Registro Central de Ensaios Controlados da Cochrane; PEDro: Physiotherapy Evidence Database.

Não houve restrição de idioma, data ou delineamento. Bases por assinatura não foram consultadas porque os autores não têm acesso institucional a elas.

A evidência diretamente elegível foi formada por estudos primários de intervenção, de qualquer delineamento, com adultos com HAM/TSP submetidos a intervenção fisioterapêutica ou de neuromodulação e com ao menos um desfecho clínico. Foram excluídos relatos de caso único, resumos de congresso, estudos sem intervenção ou só com fármacos, editoriais e revisões narrativas. Revisões sistemáticas serviram só para conferir referências e para a discussão, e registros de ensaio sem resultados publicados foram citados apenas como estudos registrados. Dez registros sem resumo foram julgados apenas pelo título, sem leitura do texto completo, o que pode excluir publicações elegíveis quando o título é pouco informativo; na revisão do parecer, os quatro de título menos claro foram conferidos pelo tipo de publicação ou pelo resumo na base de origem, e nenhum correspondia aos critérios.

Estudos que não atendiam integralmente à população definida, isto é, com infectados pelo HTLV-1 sem mielopatia, com mielopatia não relatada ou com amostra mista sem resultados separados, foram admitidos como evidência complementar de aplicabilidade parcial, analisados à parte e rotulados, sem compor o mesmo enunciado dos achados diretos. Esses estudos não permitem estimar efeitos específicos em pessoas com HAM/TSP e servem apenas para contextualizar os achados diretos. Um estudo de sessão única entrou só como dado de tolerância, e um estudo com desfecho exclusivamente postural, fora dos desfechos delimitados, foi descrito à parte.

A aplicabilidade de cada estudo foi classificada como direta, parcial ou indireta. O risco de viés foi avaliado com o RoB 2 nos ensaios randomizados, incluindo o domínio específico dos ensaios cruzados [8]; com a ferramenta do Joanna Briggs Institute (JBI) para estudos quase experimentais, de nove itens, nos estudos de grupo único [9]; e com a ferramenta JBI para séries de casos, de dez itens, na série de casos [10]. As ferramentas JBI foram respondidas item a item; como não fornecem categoria global e não se usou regra de pontuação, a classificação de risco alto desses estudos é uma apreciação crítica desta revisão, motivada pela ausência de grupo controle em todos eles. O domínio de medida do desfecho foi julgado por desfecho quando diferia entre testes de desempenho com avaliador cego e autorrelato.

A certeza foi graduada pelo sistema GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) por comparação e desfecho nos ensaios randomizados [11], que começaram em certeza alta; cada domínio grave rebaixou um nível e cada domínio muito grave, dois, e comparações distintas foram graduadas em linhas separadas. Os estudos sem grupo controle não foram graduados, porque não oferecem comparação capaz de sustentar um julgamento sobre efetividade; seus achados foram apenas descritos. Sem metanálise, a direção do efeito foi descrita como relatada. Quedas, manutenção do efeito, eventos adversos e tolerância não foram graduados por falta de medida comparativa ou de registro na maioria dos estudos. O viés de publicação não foi avaliado estatisticamente, porque nenhuma comparação reuniu dez estudos. Pelos sinais disponíveis, sobretudo seis ensaios registrados sem resultados publicados, foi julgado suspeito, de direção desconhecida; não levou a rebaixamento adicional porque todas as linhas já estavam em certeza muito baixa, e a ausência de análise estatística não afasta esse viés.

A deduplicação foi feita por script. A triagem por título e resumo e a leitura dos textos completos foram feitas por dois autores de forma independente, com arbitragem de um terceiro. Para os textos fechados, procurou-se versão aberta legítima (OpenAlex, Europe PMC, Semantic Scholar e busca na web), com nova tentativa durante a revisão do parecer; os que continuaram inacessíveis foram declarados não recuperados, porque a recuperação dependeu do acesso aberto às publicações. Referências das revisões e dos estudos incluídos e registros de ensaio foram usados para identificar estudos adicionais.

A extração seguiu formulário padronizado, com uma linha por relato, e relatos do mesmo estudo foram reunidos. Valores apresentados apenas em gráfico não foram estimados, e as informações ausentes foram registradas como não relatadas. A síntese foi organizada por eixo de intervenção e estratificada por delineamento (randomizado ou sem grupo controle) e por aplicabilidade. Não houve registro de protocolo nem aplicação integral do fluxo de uma revisão sistemática.

Resultados

As buscas recuperaram 290 registros (Quadro 1); após a remoção de 64 duplicatas, 226 foram triados por título e resumo, 188 foram excluídos e 38 seguiram para o texto completo: 26 publicações e 12 registros de ensaio. Das 26 publicações, 18 eram relatos de estudos primários e foram incluídas, três eram revisões sistemáticas, mantidas só para contexto, e cinco não foram recuperadas [12–16]. Dos 12 registros de ensaio, cinco tinham publicação, quatro já entre os relatos incluídos e uma localizada pelo próprio registro, e sete, correspondentes a seis estudos, não tinham resultados publicados (JMA-IIA00204/JMA-IIA00257, RBR-8sdrvb, RBR-2cmvbwk, NCT04875403, RBR-4zdtk9n e RBR-9y34g7s). Nenhum texto completo lido foi excluído. Quatro estudos ausentes de todas as bases buscadas foram identificados por outras fontes: um pela referência de uma revisão sistemática [17], um pelo registro do ensaio [18] e dois pelas referências de estudos incluídos [19,20]. Os 22 relatos incluídos foram contados como 19 estudos, porque três pares de relatos foram reunidos [21–26]. Dois desses pares descrevem a mesma amostra ou o mesmo ensaio registrado [21–24]. Os dois relatos de treino inspiratório têm o mesmo registro e o mesmo parecer de ética, mas amostras de 6 e 7 participantes e períodos sobrepostos [25,26]; não foi possível comprovar que formem um único estudo, e, se forem estudos distintos, o total seria de 20.

Todos os estudos foram conduzidos no Brasil: dez em Salvador, cinco em Belém, dois no Rio de Janeiro, um em Belo Horizonte e um em Campo Grande. Essa concentração limita a extrapolação dos achados para países com outra organização dos serviços, outro acesso à reabilitação e outro perfil clínico. Dez eram ensaios randomizados, dois deles cruzados [27,28], e nove não tinham grupo controle, entre eles uma série de cinco casos [29] e um estudo de sessão única [30]. As amostras variaram de 5 a 49 participantes. A aplicabilidade foi direta em 15 estudos e parcial em quatro: mielopatia não relatada [31], amostras mistas com e sem mielopatia [25,26], esclerose múltipla e HAM/TSP sem resultados separados [32] e infectados sem mielopatia [33] (Quadro 2). Nenhum estudo apresentou estimativa do efeito comparativo com intervalo de confiança; o único que relatou intervalos o fez para a comparação entre as sequências dentro de cada fase do ensaio cruzado [28]. Quatro estudos registraram eventos adversos com método descrito, e dois acompanharam os participantes após o fim da intervenção.

Quadro 2 – Estudos incluídos, com delineamento, população, aplicabilidade e risco de viés.

Estudo

Delineamento

População;
n analisados

Intervenção x
comparador

Aplicabilidade

Risco de viés
(domínios limitantes)

Macêdo 2019; Mota 2020 [23,24]

ECR, três braços

HAM/TSP; 49 na linha de base e 36 nas tabelas de desfecho (número randomizado não informado; 56 ou 45 aceitaram, conforme o relato)

Exercício domiciliar supervisionado ou não x cuidado habitual

direta

Alto: D3; D4 nos desfechos autorrelatados; n aleatorizado incerto

Borges 2014 [27]

ECR cruzado

HAM/TSP com lombalgia; 22

Pilates x espera

direta (HAM/TSP segundo os Resultados; Métodos ambíguos)

Alto: S (efeito residual); D4; D5

Sousa 2024 [18]

ECR

HAM/TSP; 22

Pilates x treino orientado à tarefa

direta

Algumas preocupações: D1 (desequilíbrio na linha de base); D5

Livramento 2012 [19]

ECR (descrito como de corte transversal)

HAM/TSP com lombalgia; 14

Pilates x controle sem conduta descrita; desfecho postural

direta na população; desfecho (postura) fora dos desfechos delimitados

Alto: D5; D2

Britto 2014 [34]

ECR

HAM/TSP; 14 de 30 randomizados

FNP pelo terapeuta x FNP autoaplicada

direta

Alto: D2; D3 (53% excluídos após a aleatorização)

Fonseca 2021 [28]

ECR cruzado

HAM/TSP com marcha independente; 29

Realidade virtual x sem intervenção

direta

Algumas preocupações (TUG, velocidade da marcha); Alto (Berg): D2 (cointervenção); S; D3; D5 (Berg não registrado)

Oliveira Arnaut 2014 [17]

ECR

HAM/TSP; 9 de 12 randomizados

Realidade virtual + exercícios x exercícios

direta

Alto: D3; D4 nos desfechos autorrelatados

Bottini 2019 [32]

ECR

Mulheres com EM ou HAM/TSP; 19

Eletroestimulação + exercícios do assoalho pélvico x exercícios

parcial: esclerose múltipla e HAM/TSP juntas

Alto: D1; D4; D5

Oliveira 2025 [33]

ECR aberto

HTLV-1 sem HAM, bexiga hiperativa; 42 randomizados

TENS parassacral x darifenacina

parcial: HTLV-1 sem HAM (HAM era critério de exclusão)

Alto: D3; D4

Souto 2014 [31]

ECR com simulação

HTLV-1 com dor crônica; 20

ETCC anódica x simulação (neuromodulação)

parcial: mielopatia não relatada

Algumas preocupações: D5 (análise post hoc); D3

Facchinetti 2017; 2013 [21,22]

Antes e depois

HAM/TSP; 23 de 34 elegíveis

Exercício domiciliar

direta

Alto: ausência de controle; perdas de 32% com análise dos que completaram

Figueiredo Neto 2012 [20]

Antes e depois

HAM/TSP; 10 de 17

Fortalecimento funcional

direta

Alto: ausência de controle; perdas de 41% com análise dos que completaram

Rodrigues 2015 [35]

Antes e depois

HAM/TSP; 9

Cinesioterapia e FNP

direta

Alto: ausência de controle; avaliador não cego; perdas não relatadas

Costa 2018 [29]

Série de casos

HAM/TSP com espasticidade; 5

FNP

direta

Alto: critério diagnóstico e dose não relatados; sem controle

Andrade 2016 [36]

Antes e depois

HAM provável ou definida, bexiga neurogênica; 21

Terapia comportamental, exercícios do assoalho pélvico e eletroestimulação

direta (HAM provável ou definida)

Alto: ausência de controle; desfecho autorrelatado sem cegamento

Lemos 2020 [37]

Antes e depois

Mulheres infectadas; 9 (4 com HAM/TSP)

TENS tibial, eletroestimulação e cinesioterapia pélvicas

direta no grupo PET/MAH (n=4); parcial no grupo assintomático

Alto: ausência de controle; n=4; critério diagnóstico não relatado

Dias 2020; 2021 [25,26]

Antes e depois

Amostras mistas; 6 e 7 (3 e 4 com HAM/TSP)

Treino muscular inspiratório

parcial: 3 de 6 e 4 de 7 com PET/MAH, resultados não separados

Alto: ausência de controle; perdas; amostra mista

Silva 2024 [38]

Antes e depois

HAM; 20

Estimulação vestibular galvânica (neuromodulação)

direta

Alto: ausência de controle ou simulação

Fonseca 2020 [30]

Sessão única

HAM/TSP; 12

Sessão de exercícios (tolerância)

direta; só dado de tolerância

Alto: desenho descritivo; análise que não sustenta a conclusão

Legenda: ECR: ensaio clínico randomizado; HAM/TSP e PET/MAH: mielopatia associada ao HTLV-1/paraparesia espástica tropical (HAM: forma abreviada usada por alguns estudos); HTLV-1: vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1; EM: esclerose múltipla; FNP: facilitação neuromuscular proprioceptiva; TENS: estimulação elétrica nervosa transcutânea; ETCC: estimulação transcraniana por corrente contínua; TUG: Timed Up and Go. Domínios do RoB 2: D1 aleatorização; D2 desvios da intervenção; D3 dados faltantes; D4 medida do desfecho; D5 seleção do resultado relatado; S período e efeito residual (ensaios cruzados). Estudos sem grupo controle avaliados item a item pelas ferramentas do Joanna Briggs Institute; essas ferramentas não fornecem categoria global, e o risco alto desses estudos é apreciação dos autores, sem regra de pontuação, motivada pela ausência de grupo controle. Aplicabilidade parcial: os resultados não estimam efeitos específicos em pessoas com HAM/TSP.

Três ensaios tiveram algumas preocupações [18,28,31], no caso do ensaio de realidade virtual apenas para a mobilidade funcional e a velocidade da marcha; sete ensaios e os nove estudos sem controle tiveram risco alto (Quadro 2). Os domínios mais limitantes foram dados faltantes com análise só de quem completou, autorrelato sem cegamento, seleção do resultado relatado e ausência de grupo controle. As 11 linhas de certeza, todas de ensaios randomizados, tiveram certeza muito baixa (Quadro 4); os estudos sem grupo controle foram descritos sem graduação. A síntese por eixo está no Quadro 3.

Quadro 3 – Síntese por eixo de intervenção, com população, aplicabilidade e principais achados como relatados.

Eixo

Estudos

População e
aplicabilidade

Principais achados (como relatados)

Exercício domiciliar

ECR [23,24]; sem controle [21,22]

HAM/TSP; direta

Contra cuidado habitual: TUG e velocidade do ciclo da marcha melhores (p de 0,002 a 0,047; TUG só em gráfico); dor e SF-36 sem diferença. Sem controle: adesão de 90%; força maior só no subgrupo com TUG <20 s; Barthel sem mudança

Pilates e treino orientado à tarefa

ECR [18,19,27]

HAM/TSP; direta (postura fora dos desfechos delimitados)

Dor menor após o Pilates nas duas sequências do cruzado (p<0,001 intragrupo), sem efeito entre condições apresentado; Pilates e treino orientado à tarefa sem diferença entre si (p de 0,25 a 0,77); postura com mudanças só intragrupo

FNP, cinesioterapia e fortalecimento

ECR [34]; sem controle [20,29,35]

HAM/TSP; direta

FNP pelo terapeuta e autoaplicada sem diferença no TUG e na MIF; espasticidade menor só no quadríceps; série de casos descritiva; TUG de 15,68 para 12,31 s e marcha em 10 m de 12,74 para 11,02 s após fortalecimento

Realidade virtual

ECR [17,28]

HAM/TSP; direta

Sem diferença frente à ausência de intervenção no TUG (p=0,290), na velocidade (p=0,296) e na escala de Berg (p=0,415), sem estimativa do contraste entre condições com intervalo de confiança; com exercícios, Berg melhor só na análise intragrupo e diferença entre grupos só nos aspectos emocionais do SF-36 (p=0,027)

Fisioterapia pélvica e eletroestimulação

Sem controle [36,37]; ECR [32,33]

Direta nos sem controle (no segundo, só 4 com HAM/TSP); parcial nos ECR (EM e HAM/TSP juntas; HTLV-1 sem HAM)

Urgência de 100% para 42,9% e 40% sem falha em 1 ano; força do assoalho pélvico maior; eletroestimulação + exercícios melhor que exercícios (p=0,001) em amostra mista; TENS parassacral e darifenacina sem diferença nos sintomas (p=0,79), falha de 4,8% x 33,3% (p=0,04)

Fisioterapia respiratória

Sem controle [25,26]

Amostras mistas; parcial

PImáx de 66,8 para 115,08 e de 66,05 para 99,87 cmH2O; sem desfechos funcionais

Neuromodulação (complementar)

ECR [31]; sem controle [38]

Mielopatia não relatada (parcial); HAM (direta)

ETCC e simulação sem diferença na dor (p=0,06) e no TUG (p=0,8); estimulação vestibular galvânica: TUG de 28 para 18 s e de volta a 24 s após 9 meses sem estímulo

Eventos adversos e tolerância

[21,24,30,31,33,38]

Conforme cada estudo

Registro com método descrito em 4 de 19 estudos, com eventos leves e transitórios; nos demais, eventos não relatados ou afirmados sem método, o que não demonstra ausência de risco; 4 abandonos por lesão após queda num ensaio sem registro sistemático; esforço moderado a intenso numa sessão de 50 min

Legenda: Nos estudos sem grupo controle, os achados são mudanças observadas após a intervenção e não demonstram que ela as tenha causado; esses estudos não foram graduados pelo sistema GRADE. SF-36: Short Form-36; MIF: Medida de Independência Funcional; PImáx: pressão inspiratória máxima. Demais siglas como no Quadro 2.

Quadro 4 – Certeza da evidência por comparação e desfecho nos ensaios randomizados (sistema GRADE), sem metanálise.

Linha

Comparação e desfecho

Estudos

Delineamento

Domínios que
reduziram a certeza

Certeza

A1

Exercício domiciliar (supervisionado ou não) x cuidado habitual: mobilidade e marcha (TUG, velocidade e passo)

[24]

ECR

risco de viés muito grave; imprecisão muito grave

Muito baixa

A2

Exercício domiciliar x cuidado habitual: dor e qualidade de vida

[23]

ECR

risco de viés muito grave; imprecisão muito grave

Muito baixa

A3a

Realidade virtual (Nintendo Wii) x sem intervenção: mobilidade funcional e marcha (TUG, velocidade; desfechos primários registrados no NCT02877030)

[28]

ECR cruzado

risco de viés grave; imprecisão muito grave

Muito baixa

A3b

Realidade virtual (Nintendo Wii) x sem intervenção: equilíbrio (Berg)

[28]

ECR cruzado

risco de viés muito grave; imprecisão muito grave

Muito baixa

A4

Pilates x espera (cruzado): dor lombar e qualidade de vida

[27]

ECR cruzado

risco de viés muito grave; imprecisão grave

Muito baixa

A5a

FNP pelo terapeuta x FNP autoaplicada com tubo elástico: mobilidade (TUG), funcionalidade (MIF motora), espasticidade e dor lombar

[34]

ECR

risco de viés muito grave; imprecisão muito grave

Muito baixa

A5b

Realidade virtual + exercícios x exercícios: equilíbrio (Berg), dor e qualidade de vida

[17]

ECR

risco de viés muito grave; imprecisão muito grave

Muito baixa

A5c

Pilates x treino orientado à tarefa: mobilidade, equilíbrio, capacidade funcional e fadiga

[18]

ECR

risco de viés grave; imprecisão muito grave

Muito baixa

A6

Eletroestimulação + exercícios do assoalho pélvico x exercícios: sintomas urinários e força do assoalho pélvico

[32]

ECR

risco de viés muito grave; evidência indireta grave; imprecisão grave

Muito baixa

A7

TENS parassacral x darifenacina: sintomas urinários, falha e eventos adversos (infectados pelo HTLV-1 sem HAM)

[33]

ECR

risco de viés muito grave; evidência indireta muito grave; imprecisão grave

Muito baixa

A8

Neuromodulação: ETCC anódica x simulação: dor e mobilidade (TUG)

[31]

ECR

risco de viés grave; evidência indireta grave; imprecisão muito grave

Muito baixa

Legenda: Ensaios randomizados começam em certeza alta; domínio grave rebaixa um nível e muito grave, dois, e três ou mais rebaixamentos levam a certeza muito baixa. Viés de publicação julgado suspeito, de direção desconhecida, sem rebaixamento adicional porque todas as linhas já estavam em certeza muito baixa. Não graduados: estudos sem grupo controle (descritos no Quadro 3), eventos adversos e tolerância (registro ausente na maioria dos estudos), quedas (nenhum estudo incluído as mediu como desfecho comparativo) e manutenção do efeito (seguimento em dois estudos). Demais siglas como nos Quadros 2 e 3.

No ensaio de três braços com programa domiciliar de alongamento e fortalecimento, o Timed Up and Go (TUG) e a velocidade do ciclo da marcha foram melhores que no cuidado habitual (p de 0,002 a 0,047), com os valores do TUG só em gráfico [24]; dor e qualidade de vida não diferiram entre grupos [23]. Os relatos discordam no número de participantes: segundo um, 56 aceitaram participar e 49 completaram; segundo o outro, 45 permaneceram e 36 completaram; as tabelas de linha de base somam 49, e nenhum relato informa quantos foram randomizados. A redução percentual da dor foi atribuída a grupos diferentes ao longo de um dos relatos, e a certeza é muito baixa. Num programa domiciliar sem grupo controle, a adesão mediana foi de 90%, e a força foi maior após o programa apenas no subgrupo com TUG menor que 20 s [21,22].

No ensaio cruzado de Pilates, a dor lombar caiu após o Pilates nas duas sequências (de 7,18 para 3,45 e de 7,50 para 4,57; p<0,001 na comparação intragrupo), mas o efeito entre condições, anunciado nos Métodos, não foi apresentado, e houve efeito residual significativo [27]. Pilates e treino orientado à tarefa não diferiram entre si em mobilidade, equilíbrio, capacidade funcional ou fadiga (p de 0,25 a 0,77), com grupos diferentes na linha de base [18]. Um ensaio com desfecho postural relatou apenas mudanças intragrupo, sem a comparação entre grupos anunciada [19].

A facilitação neuromuscular proprioceptiva aplicada pelo terapeuta e a autoaplicada com tubo elástico não diferiram no TUG nem na Medida de Independência Funcional; o tônus do membro inferior direito diminuiu mais com o tubo (p=0,01), e 16 dos 30 randomizados foram excluídos após a alocação [34]. Sem grupo controle, a espasticidade diminuiu significativamente só no quadríceps após 20 sessões de cinesioterapia [35], e uma série de cinco casos descreveu menor tônus e maior amplitude de movimento sem análise inferencial [29]. Após oito semanas de fortalecimento funcional, o TUG passou de 15,68 para 12,31 s e a marcha em 10 m, de 12,74 para 11,02 s, entre os 10 que completaram, de 17 selecionados [20]. A comparação entre as duas formas de facilitação tem certeza muito baixa, e os estudos sem grupo controle não foram graduados.

No ensaio cruzado com jogo no Nintendo Wii, não houve diferença entre as fases de intervenção e controle no TUG (p=0,290), na velocidade da marcha (p=0,296) ou na escala de equilíbrio de Berg (p=0,415) [28]. Os tamanhos de efeito com intervalo de confiança apresentados no artigo comparam os grupos de terapia precoce e tardia dentro de cada fase, e não a realidade virtual com a fase controle; a fonte não apresenta estimativa desse contraste com intervalo de confiança. O efeito da realidade virtual sobre a mobilidade funcional e a velocidade da marcha é incerto, com certeza muito baixa. A escala de Berg não constava do registro do ensaio (NCT02877030) e tem certeza muito baixa. A conclusão de efeito positivo é dos autores do ensaio, com p>0,05. Na comparação entre realidade virtual somada a exercícios e exercícios isolados, a escala de Berg melhorou só no grupo com realidade virtual na análise intragrupo (de 33,60 para 43,60; p=0,033), e entre grupos diferiram apenas os aspectos emocionais da qualidade de vida (p=0,027); os próprios autores concluíram que a realidade virtual não melhorou o equilíbrio [17].

Sem grupo controle, após terapia comportamental com exercícios do assoalho pélvico e eletroestimulação, a urgência passou de 100% para 42,9% e o escore de bexiga hiperativa, de 10 para 6, em 21 pessoas com HAM/TSP provável ou definida, e 40% continuavam sem falha terapêutica em um ano [36]. Em quatro mulheres com HAM/TSP, a força do assoalho pélvico aumentou após 16 sessões, sem mudança significativa nos questionários de qualidade de vida e de função sexual segundo as tabelas, embora o resumo afirme melhora [37]. Com aplicabilidade parcial, a eletroestimulação somada a exercícios do assoalho pélvico resultou em força e sintomas melhores que os exercícios isolados (p=0,001) em amostra que reuniu esclerose múltipla e HAM/TSP [32]; em infectados sem mielopatia, a estimulação elétrica nervosa transcutânea parassacral e a darifenacina reduziram os sintomas sem diferença entre si (p=0,79), com falha de 4,8% e 33,3% (p=0,04) [33]. Os dois ensaios têm certeza muito baixa e aplicabilidade parcial, e os estudos sem grupo controle não foram graduados.

Após quatro a cinco semanas de treino muscular inspiratório, a pressão inspiratória máxima aumentou de 66,8 para 115,08 cmH2O [25] e de 66,05 para 99,87 cmH2O [26], em amostras mistas com provável sobreposição de participantes e sem desfechos funcionais; são estudos sem grupo controle, não graduados.

A estimulação transcraniana por corrente contínua anódica e a simulação reduziram a dor sem diferença entre si (interação tempo e grupo, p=0,06) e sem diferença no TUG (p=0,8), em infectados com dor crônica e mielopatia não relatada; a vantagem na proporção de respondedores foi analisada após os resultados [31]. Sem grupo controle, o TUG mediano passou de 28 para 18 s após 12 sessões de estimulação vestibular galvânica e voltou a 24 s após nove meses sem estímulo, com padrão semelhante na escala de Berg [38]. O ensaio tem certeza muito baixa e aplicabilidade parcial, e o estudo sem grupo controle não foi graduado.

Onde registrados com método, os eventos foram leves e transitórios: formigamento na estimulação transcraniana, inclusive na simulação [31]; fadiga e dor muscular (78%) e cãibras (61%) no exercício domiciliar [21]; oscilação da cabeça e formigamento na estimulação vestibular [38]; e nenhum com a estimulação parassacral [33]. Nos demais estudos, os eventos adversos não foram relatados ou foram afirmados sem método, o que não permite distinguir ausência de eventos de ausência de monitoramento. No ensaio domiciliar sem registro sistemático, quatro participantes abandonaram por lesão após queda [24]. Uma sessão de 50 minutos foi percebida como esforço moderado a intenso [30]. Nenhum dos estudos incluídos mediu quedas como desfecho comparativo; houve apenas contagem no período de tratamento [22]. Um relato não recuperado do mesmo registro do ensaio de realidade virtual informa no resumo redução na ocorrência de quedas (p=0,039) [13]; sem o texto completo, esse dado não pôde ser avaliado nem incluído na síntese. Só dois estudos acompanharam os participantes após a intervenção [36,38], e não se pode julgar a manutenção do efeito nos demais.

Discussão

O conjunto é formado por estudos brasileiros pequenos, concentrados em dois centros, com risco de viés alto ou com algumas preocupações e certeza muito baixa em todas as comparações graduadas. As melhoras relatadas vêm, em sua maioria, de comparações intragrupo ou de estudos sem grupo controle, que não separam o efeito da intervenção da variação espontânea, da regressão à média e de cointervenções.

É preciso distinguir a amplitude da indicação da certeza da evidência. O consenso internacional afirma que as terapias físicas podem melhorar a função e a qualidade de vida [2], e as revisões narrativas descreveram efeitos promissores [3,4]. Essa convergência não se traduz em evidência graduada: nenhuma das fontes atribuiu rótulo de força à recomendação, e a evidência encontrada aqui não permite estabelecer a direção nem a magnitude dos efeitos.

As revisões sistemáticas anteriores chegaram a conclusões mais favoráveis. Uma delas classificou 81,8% dos estudos como de alta qualidade pela escala de Jadad e associou os movimentos corporais ativos e passivos a resultados positivos, embora apontasse a necessidade de mais ensaios [5]. Outra atribuiu certeza moderada ao exercício resistido para a dor, mas reuniu diferentes infecções virais, com heterogeneidade substancial no subgrupo do HTLV (I² de 71%) [6]. Na avaliação dos autores desta revisão, a diferença decorre do escopo restrito à HAM/TSP, da avaliação por domínios do risco de viés e da graduação separada de cada comparação e desfecho, e não de dados que contradigam os estudos primários.

No exercício terapêutico, o único contraste com cuidado habitual relatou mobilidade melhor com o programa domiciliar [24] e nenhuma diferença na dor e na qualidade de vida [23]; com certeza muito baixa, não se pode confiar nem na direção desse resultado. As comparações entre modalidades ativas não mostraram diferenças [17,18,34]; com amostras de 9 a 22 participantes, a ausência de diferença não demonstra equivalência. Na realidade virtual, a conclusão favorável do ensaio cruzado [28] contrasta com a ausência de diferença entre as fases e com a falta de estimativa do contraste com intervalo de confiança, e a escala de Berg, não registrada, aumenta o risco de relato seletivo. Na fisioterapia pélvica, a evidência direta vem de estudos sem controle [36,37], e os ensaios controlados têm aplicabilidade parcial [32,33]. O treino inspiratório mostrou mudança num desfecho intermediário, sem medida funcional [25,26]. A neuromodulação, eixo complementar ao escopo do título, não mostrou diferença frente à simulação [31], e a melhora observada sem controle não se manteve após a interrupção [38].

Hierarquizando pelo Quadro 4, nenhuma comparação alcançou certeza baixa ou superior: todas as linhas, de ensaios randomizados, têm certeza muito baixa, inclusive a da realidade virtual frente à ausência de intervenção. Entre elas, as de aplicabilidade parcial, de eletroestimulação pélvica e de neuromodulação, somam a incerteza sobre a população. Os estudos sem grupo controle, de fortalecimento, cinesioterapia, fisioterapia pélvica e treino inspiratório, apenas descrevem mudanças após a intervenção. Persistem lacunas: nenhum estudo incluído avaliou hidroterapia, órteses, dispositivos auxiliares ou telerreabilitação, nem mediu quedas como desfecho comparativo, e quase nenhum acompanhou os participantes após a intervenção.

No contexto brasileiro, país apontado como uma das maiores áreas endêmicas [1], a produção concentra-se em centros de referência de Salvador e Belém, e quatro estudos publicados em periódicos nacionais não estavam em nenhuma das bases buscadas [17–20]. Seis ensaios registrados não tinham resultados publicados, sinal compatível com viés de publicação de direção desconhecida. Vários estudos usaram o TUG e a escala de Berg; o consenso internacional propõe o TUG, a marcha cronometrada em 10 m e o teste de caminhada de seis minutos para classificar a progressão da doença [2]. Na avaliação dos autores desta revisão, o uso dessas medidas e a estratificação pela velocidade de progressão facilitariam a comparação entre ensaios futuros.

Primeiro, sem protocolo registrado, decisões de método podem ter sido tomadas após o contato com os dados. Segundo, cinco artigos não foram recuperados, porque a recuperação dependeu do acesso aberto, e uma nova tentativa durante a revisão também não os obteve; entre eles estão um ensaio do mesmo registro do ensaio de realidade virtual incluído, cujo resumo relata redução de quedas [13], um ensaio de Pilates [14] e dois estudos de estimulação magnética transcraniana [12,15], todos ligados ao objetivo desta revisão. Sua ausência pode ter alterado a síntese, e o conjunto recuperado não deve ser tomado como exaustivo. Terceiro, a identificação de quatro estudos fora das bases indica que a busca não foi exaustiva e que outros estudos não indexados podem existir. Quarto, a adaptação da estratégia da LILACS e a busca no SciELO em data diferente podem ter reduzido a sensibilidade nessas bases. Quinto, os julgamentos de risco de viés e de certeza da evidência foram aplicados de forma preliminar por ferramenta de inteligência artificial e não passaram por conferência independente em duplicata, o que aumenta o risco de erro nesses julgamentos, dos quais dependem as conclusões. Sexto, os autores dos estudos não foram contatados, e discrepâncias internas, como o número de participantes divergente entre relatos do mesmo ensaio e valores só em gráfico, permaneceram sem esclarecimento. Sétimo, estudos do mesmo centro podem ter compartilhado participantes, inclusive os dois relatos de treino inspiratório contados como um estudo, o que não pôde ser verificado. Oitavo, a heterogeneidade de intervenções e medidas não permitiu síntese quantitativa adequada no escopo desta revisão, ainda que não exclua metanálise em recortes mais restritos. Nono, bases por assinatura não foram consultadas, e dez registros sem resumo foram julgados só pelo título. Décimo, todos os estudos foram conduzidos no Brasil, o que limita a extrapolação para outros contextos assistenciais. Em conjunto, essas limitações permitem caracterizar os achados relatados e a certeza da evidência, sem estabelecer a efetividade das intervenções.

Conclusão

As intervenções fisioterapêuticas avaliadas em adultos com HAM/TSP incluem exercício domiciliar, Pilates, facilitação neuromuscular proprioceptiva, fortalecimento, realidade virtual, fisioterapia pélvica com eletroestimulação e treino muscular inspiratório, além da neuromodulação como eixo complementar. Em todas as comparações com grupo controle, inclusive a da realidade virtual frente à ausência de intervenção, a certeza da evidência é muito baixa e o efeito permanece incerto; os estudos sem grupo controle apenas descrevem mudanças após a intervenção. Nenhum dos estudos incluídos mediu quedas como desfecho comparativo, e a ausência de eventos adversos relatados não equivale a segurança demonstrada. Os achados caracterizam os resultados relatados e suas limitações, sem permitir estabelecer a direção nem a magnitude dos efeitos.

Declaração sobre o Uso de inteligência artificial

O Claude (Anthropic) foi usado como ferramenta de apoio, sob supervisão dos autores, na execução das buscas e na deduplicação, na triagem, na organização da extração, na aplicação preliminar das ferramentas de risco de viés e do sistema GRADE, na redação e na verificação de contagens e referências. A ferramenta não fez interpretação clínica autônoma nem redigiu conclusões sem revisão. A triagem e a leitura dos textos completos foram feitas por dois autores de forma independente, com arbitragem de um terceiro, e a extração e as referências foram conferidas pelos autores. Os julgamentos de risco de viés e de certeza da evidência propostos pela ferramenta não passaram por conferência independente em duplicata pelos autores, limitação declarada na Discussão. A interpretação clínica e as conclusões são dos autores.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflito de interesse.

Financiamento

Não houve financiamento.

Contribuição dos autores

Concepção e desenho da pesquisa: Pessoa PEM; Redação do manuscrito: Pessoa PEM, Corcetti LF, Calil RF, Antonini HW; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Pessoa PEM, Corcetti LF, Calil RF, Antonini HW.

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