REVISÃO
Estratégias de monitoramento da sífilis em gestante no Brasil: Uma revisão de literatura
Jaqueline Alves Pires1, Tauane Santos da Silva2, Yandra Alves Prestes3, Hércules Lázaro Morais Campos3
1Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, BA, Brasil
2Faculdade de Tecnologia e Ciências (UniFTC), Salvador, BA, Brasil
3Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano, Faculdade de Educação Física e Fisioterapia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Manaus, AM, Brasil
Recebido em: 15 de Maio de 2026; Aceito em: 17 de Maio de 2026.
Correspondência: Jaqueline Alves Pires, piresaragao7@gmail.com
Como citar
Pires JA, Silva TS, Prestes YA, Campos HLM. Estratégias de monitoramento da sífilis em gestante no Brasil: Uma revisão de literatura. Enferm Bras. 2026;25(2):3220-3232 doi: 10.62827/eb.v25i2.4221.
Introdução: A sífilis em gestantes permanece como importante problema de saúde pública, devido aos impactos maternos e neonatais associados à transmissão vertical e às fragilidades no diagnóstico e tratamento oportunos. Objetivo: Identificar e sintetizar as estratégias de monitoramento da sífilis em gestantes descritas na literatura científica brasileira. Métodos: Revisão integrativa da literatura realizada em bases de dados nacionais e internacionais (SciELO, PubMed, BVS, Scopus e Web of Science), com artigos publicados entre 2015 e 2025. Foram aplicados critérios de elegibilidade e analisados 10 estudos. Resultados: Observou-se predominância de estudos ecológicos com uso de dados secundários, especialmente do Sistema de Informação de Agravos de Notificação. As estratégias de monitoramento incluem notificação compulsória, testagem rápida e repetida no pré-natal, uso de indicadores assistenciais e epidemiológicos, além da capacitação profissional. Entre as principais barreiras destacam-se subnotificação, incompletude dos dados, desigualdades regionais e fragilidades na organização do cuidado. Conclusão: O monitoramento da sífilis em gestantes no Brasil dispõe de instrumentos consolidados, porém apresenta operacionalização heterogênea. É necessário fortalecer a integração entre vigilância epidemiológica e Atenção Primária à Saúde.
Palavras-chave: Gestantes; Sífilis Congênita; Cuidado Pré-Natal; Vigilância Epidemiológica; Diagnóstico Precoce.
Strategies for monitoring syphilis in pregnant women in Brazil: A literature review
Introduction: Syphilis in pregnant women remains an important public health problem due to the maternal and neonatal impacts associated with vertical transmission and the weaknesses in timely diagnosis and treatment. Objective: To identify and synthesize the monitoring strategies for syphilis in pregnant women described in the Brazilian scientific literature. Methods: An integrative literature review was conducted using national and international databases (SciELO, PubMed, BVS, Scopus, and Web of Science), including articles published between 2015 and 2025. Eligibility criteria were applied, and 10 studies were analyzed. Results: Ecological studies using secondary data predominated, especially data from the Notifiable Diseases Information System. Monitoring strategies included compulsory notification, rapid and repeated testing during prenatal care, the use of healthcare and epidemiological indicators, and professional training. The main barriers identified were underreporting, incomplete data, regional inequalities, and weaknesses in the organization of care. Conclusion: Monitoring of syphilis in pregnant women in Brazil has consolidated instruments; however, its implementation remains heterogeneous. It is necessary to strengthen the integration between epidemiological surveillance and Primary Health Care.
Keywords: Pregnant People; Syphilis; Prenatal Care; Epidemiological Monitoring; Early Diagnosis.
Estrategias para el seguimiento de la sífilis en mujeres embarazadas en Brasil: Una revisión de la literatura
Introducción: La sífilis en mujeres embarazadas continúa siendo un importante problema de salud pública debido a los impactos maternos y neonatales asociados a la transmisión vertical y a las debilidades en el diagnóstico y tratamiento oportunos. Objetivo: Identificar y sintetizar las estrategias de monitoreo de la sífilis en mujeres embarazadas descritas en la literatura científica brasileña. Métodos: Se realizó una revisión integradora de la literatura en bases de datos nacionales e internacionales (SciELO, PubMed, BVS, Scopus y Web of Science), incluyendo artículos publicados entre 2015 y 2025. Se aplicaron criterios de elegibilidad y se analizaron 10 estudios. Resultados: Predominaron los estudios ecológicos con uso de datos secundarios, especialmente del Sistema de Información de Enfermedades de Notificación Obligatoria. Las estrategias de monitoreo incluyeron notificación obligatoria, pruebas rápidas y repetidas durante el control prenatal, uso de indicadores asistenciales y epidemiológicos, además de capacitación profesional. Entre las principales barreras se destacaron la subnotificación, la incompletitud de los datos, las desigualdades regionales y las debilidades en la organización de la atención. Conclusión: El monitoreo de la sífilis en mujeres embarazadas en Brasil dispone de instrumentos consolidados; sin embargo, presenta una implementación heterogénea. Es necesario fortalecer la integración entre la vigilancia epidemiológica y la Atención Primaria
de Salud.
Palabras-clave: Mujeres Embarazadas; Sífilis Congénita; Atención Prenatal; Monitoreo Epidemiológico; Diagnóstico Precoz.
A sífilis permanece como uma infecção sexualmente transmissível de grande relevância para a saúde pública mundial, sobretudo quando acomete gestantes, em razão do risco de transmissão vertical e da ocorrência de desfechos adversos evitáveis, como sífilis congênita, abortamento, natimortalidade e óbitos neonatais [1]. Países que alcançaram a certificação de eliminação da transmissão vertical demonstram que o fortalecimento do monitoramento e a cobertura qualificada do pré-natal são determinantes para a redução sustentada da sífilis gestacional [2,3].
Essas experiências evidenciam que a articulação entre atenção pré-natal qualificada e monitoramento contínuo dos serviços de saúde é fundamental para a redução da transmissão vertical, reforçando a necessidade de analisar a implementação dessas estratégias em contextos nacionais específicos, como o brasileiro. A sífilis em gestantes mantém elevada magnitude e tendência de crescimento no Brasil. Dados oficiais apontam que, entre 2005 e junho de 2025, foram notificados mais de 810 mil casos no país. A distribuição regional desigual, com maior concentração na Região Sudeste, seguida pelas regiões Nordeste, Sul, Norte e Centro-Oeste, reflete disparidades no acesso e na qualidade da atenção pré-natal e das ações de vigilância em saúde [4].
Apesar da existência de protocolos nacionais que recomendam a testagem precoce e repetida durante o pré-natal, a notificação compulsória, o tratamento adequado e o acompanhamento dos casos, a persistência de elevados indicadores evidencia limitações no monitoramento da sífilis gestacional [5,6] Estudos e documentos oficiais apontam que barreiras organizacionais, fragilidades nos sistemas de informação, dificuldades no seguimento clínico das gestantes e desigualdades sociais e territoriais comprometem a efetividade das ações de vigilância e a prevenção da transmissão vertical [7,8,5].
Nesse contexto, fortalecer o controle da sífilis gestacional é imprescindível para o alcance das metas de eliminação da transmissão vertical até 2030, alinhadas às diretrizes da Organização Mundial da Saúde, sendo a sistematização das evidências um instrumento essencial para orientar ações mais eficazes [9].
Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo identificar e sintetizar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as estratégias de monitoramento da sífilis em gestantes descritas na literatura científica brasileira.
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, que visa reunir, analisar criticamente e sintetizar o conhecimento produzido sobre a temática em questão. A escolha desse método se justifica por permitir a inclusão de estudos com diferentes delineamentos e abordagens metodológicas, proporcionando uma visão abrangente do tema. A revisão integrativa requer rigor e clareza em todas as etapas, garantindo a transparência e a validade científica do processo de síntese do conhecimento [10].
Para a condução da revisão, seguiram-se as seis etapas: (1) identificação do tema e elaboração da questão de pesquisa; (2) definição dos critérios de inclusão e exclusão; (3) definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; (4) análise crítica dos artigos incluídos; (5) interpretação dos resultados; e (6) síntese da revisão [10].
Para a elaboração da questão norteadora da revisão integrativa foi baseada na estratégia PCC (Population, Concept, Context), recomendada para estudos cujo objetivo é mapear e sintetizar evidências sobre um tema específico. Nesse contexto, a população foi definida como gestantes, o conceito como estratégias de monitoramento da sífilis e o contexto incluiu diferentes cenários de atenção à saúde, possibilitando a identificação de estratégias utilizadas em diversos serviços e regiões. A partir disso, formulou-se a seguinte pergunta norteadora: Quais estratégias de monitoramento da sífilis em gestantes são descritas na literatura científica brasileira?
Foram incluídos artigos originais publicados nos idiomas português, inglês e espanhol, disponibilizados gratuitamente na íntegra entre 2015 e 2025, considerando a relevância das evidências mais recentes sobre o tema no contexto brasileiro. Foram excluídas publicações duplicadas ou não disponíveis na íntegra, dissertações, teses; editoriais, resumos de congressos e revisões de literatura.
O levantamento dos dados foi realizado em 03 de janeiro de 2026 a 18 de janeiro de 2026 por meio da Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed e da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), que indexa bases como Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Scopus e Web of Science. Essas bases foram selecionadas por garantirem ampla cobertura da literatura científica nacional e internacional, permitindo o acesso a estudos relevantes publicados em português, inglês e espanhol, e assegurando a inclusão de evidências atualizadas sobre estratégias de monitoramento da sífilis em gestantes.
A estratégia de busca foi construída a partir de palavras-chave e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), bem como seus correspondentes em inglês e espanhol, incluindo os termos: “Estratégias”, “Monitoramento”, “Sífilis”, “Gestantes” e “Brasil”. Estes foram combinados de diferentes formas utilizando os operadores booleanos AND e OR, a fim de ampliar a sensibilidade da busca e garantir a identificação de estudos relevantes ao tema. Portanto, a equação de busca utilizada foi em português (“Sífilis” AND “Gestantes” AND “Monitoramento” AND “Estratégias”), inglês (“Syphilis” AND “Pregnant women” AND “Monitoring” AND “Strategies”) e espanhol (“Sífilis” AND “Mujeres Embarazadas” AND “Seguimiento” AND “Estrategias”).
A seleção dos estudos seguiu as etapas de triagem por títulos e resumos, seguida da avaliação na íntegra dos artigos elegíveis. O processo foi descrito de forma transparente seguindo as recomendações do PRISMA, por meio de fluxograma que evidencia identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos [11].
A extração e organização das informações foram realizadas utilizando um instrumento padronizado adaptado dos formulários propostos pelo Joanna Briggs Institute [12]. Foram extraídos dados sobre: autoria, ano de publicação, país de realização do estudo, delineamento metodológico, população estudada, estratégias de monitoramento da sífilis em gestantes e principais achados.
Os dados coletados foram organizados em planilha eletrônica, permitindo comparação entre os estudos e identificação de padrões. A análise dos resultados foi conduzida por meio de síntese descritiva e narrativa, considerando convergências, divergências e lacunas no conhecimento presente na literatura.
A seleção dos artigos foi realizada de forma sistemática, por meio de busca em bases de dados com descritores relacionados à sífilis em gestantes e ao monitoramento. Após a leitura de títulos, resumos e textos completos, excluíram-se estudos que não atenderam aos critérios de inclusão. Ao final, 10 artigos foram incluídos por sua relevância e alinhamento ao objetivo do estudo, conforme detalhado no Fluxograma 1.
Figura 1 – Fluxograma do processo de identificação e seleção de estudos para a revisão integrativa.
Fonte: Elaborado pelos autores, 2026.
A revisão integrativa incluiu 10 estudos publicados entre 2018 e 2024 (Quadro 1), com predominância de delineamentos ecológicos e utilização de dados secundários provenientes, principalmente, dos sistemas de informação em saúde, com destaque para o SINAN. Os estudos abrangeram diferentes recortes territoriais, permitindo a análise de tendências temporais, distribuição espacial e desigualdades regionais relacionadas à sífilis em gestantes no Brasil.
As estratégias de monitoramento descritas concentram-se na vigilância epidemiológica por meio da notificação compulsória, no uso de sistemas de informação para acompanhamento dos casos e na testagem rápida e repetida durante o pré-natal. Também foram identificadas estratégias baseadas em indicadores assistenciais e epidemiológicos, como a adequação do pré-natal, a cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) e o acompanhamento do diagnóstico e do tratamento, além da capacitação de profissionais de saúde.
As principais barreiras ao monitoramento referem-se à subnotificação, à incompletude e à qualidade variável dos registros, bem como às desigualdades regionais e sociais que influenciam o acesso ao pré-natal e a organização dos serviços de saúde. Outros entraves incluem o início tardio do acompanhamento gestacional, falhas no tratamento oportuno e dificuldades no manejo dos parceiros sexuais, comprometendo a efetividade das estratégias de monitoramento da sífilis em gestantes no contexto brasileiro.
Quadro 1 – Caracterização dos estudos selecionados para a revisão. Salvador, BA, Brasil, 2026.
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Autor/Ano |
Objetivo |
Tipo de estudo |
Amostra/Fonte |
Estratégias de monitoramento |
Barreiras enfrentadas |
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Costa et al., 2024 |
Avaliar a relação entre a incidência de sífilis em gestantes e sífilis congênita no Brasil, considerando indicadores socioeconômicos e o indicador de qualidade do cuidado pré-natal da Rede Cegonha |
Estudo ecológico |
Dados secundários nacionais (IBGE, DATASUS, e-Gestor, e-SIC) |
Testagem rápida e repetida no pré-natal, uso de indicadores de qualidade do cuidado, capacitação de profissionais de saúde |
Desigualdades regionais e sociais, acesso desigual ao pré-natal |
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Santos et al., 2024 |
Avaliar a prevalência, evolução temporal e distribuição geográfica da sífilis gestacional no Brasil entre 2019 e 2023 |
Estudo ecológico |
Dados secundários nacionais (SINAN) |
Testagem rápida e repetida, análise temporal e espacial a partir do SINAN. |
Subnotificação, incompletude dos registros |
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Silva et al., 2024 |
Analisar a taxa de sífilis em gestantes no Brasil com base em tendências temporais e distribuição espacial |
Estudo analítico |
Dados secundários nacionais (SINAN) |
Notificação compulsória, vigilância epidemiológica por análise espacial e temporal |
Qualidade variável dos dados, desigualdades regionais |
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Silva et al., 2022 |
Avaliar a distribuição espaço-temporal e os aspectos epidemiológicos dos casos relatados de infecção congênita e por sífilis na gravidez no Brasil entre os anos de 2001 e 2017 |
Estudo ecológico |
Dados secundários nacionais (SINAN) |
Notificação compulsória, monitoramento epidemiológico longitudinal |
Subnotificação, desigualdades regionais |
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Oliveira; Oliveira; Alves, 2021 |
Analisar a evolução das notificações da sífilis durante a gestação em relação à classificação clínica, ao diagnóstico e ao tratamento no estado de Goiás, entre 2007 e 2017 |
Estudo ecológico |
Dados secundários – estado de Goiás (SINAN) |
Notificação compulsória, acompanhamento do diagnóstico, tratamento e seguimento dos casos |
Falhas na notificação, atraso no diagnóstico e tratamento |
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Romero et al., 2020 |
Comparar a custo-efetividade de estratégias de rastreamento da sífilis no pré-natal |
Coorte hipotética |
Dados secundários nacionais e custos do SUS |
Testagem rápida e repetida no pré-natal; avaliação econômica das estratégias |
Limitações estruturais para ampla implementação |
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Oliveira; Santos; Souto, 2020 |
Analisar o padrão espacial da sífilis gestacional e congênita em Mato Grosso |
Estudo ecológico |
Dados secundários – estado de Mato Grosso (SINAN, SIM, SIH/SUS) |
Monitoramento epidemiológico por análise espacial, integração de sistemas de informação |
Determinantes sociais; acesso desigual aos serviços |
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Benzaken et al., 2020 |
Avaliar a adequação do atendimento pré-natal, diagnóstico e tratamento da sífilis em gestantes nas capitais brasileiras |
Estudo transversal |
Dados secundários – capitais brasileiras (SINASC) |
Notificação compulsória, monitoramento da adequação do pré-natal |
Início tardio do pré-natal, tratamento inadequado do parceiro |
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Rodrigues; Domingues, 2018 |
Verificar conhecimentos e práticas de profissionais de saúde sobre o manejo da sífilis na gravidez |
Estudo transversal |
366 médicos e enfermeiros que atuam em cuidados pré-natais |
Tratamento imediato e seguimento dos casos, capacitação profissional |
Falhas organizacionais, dificuldades no tratamento do parceiro |
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Nunes et al., 2018 |
Analisar a incidência de sífilis em gestante e sífilis congênita e sua correlação com a cobertura da Estratégia de Saúde da Família em Goiás, Brasil, de 2007 a 2014 |
Estudo ecológico |
Dados secundários – estado de Goiás (SINAN e DAB) |
Monitoramento epidemiológico por indicadores, análise da cobertura da ESF |
Cobertura insuficiente da ESF, desigualdades no acesso aos serviços |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2026.
Os resultados desta revisão evidenciam que o monitoramento da sífilis em gestantes no Brasil está majoritariamente ancorado na vigilância epidemiológica baseada em sistemas de informação em saúde, especialmente no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Estudos ecológicos de abrangência nacional e temporal demonstram que a notificação compulsória constitui a principal estratégia para acompanhamento da magnitude do agravo, análise de tendências e identificação de desigualdades espaciais [13,14,15]. Em nível estadual, essa estratégia também se mantém central, com análises que utilizam o SINAN de forma isolada ou integrada a outros sistemas, como SIM e SIH/SUS, para monitoramento epidemiológico e análise espacial dos casos [16,17].
A testagem rápida e repetida durante o pré-natal é apontada como estratégia complementar relevante para o monitoramento oportuno da sífilis em gestantes, ao possibilitar a identificação precoce dos casos e o acompanhamento das ações de controle na Atenção Primária à Saúde. Essa estratégia é destacada em estudos nacionais que associam a ampliação da testagem à melhoria da detecção dos casos e ao fortalecimento da vigilância [18,15]. A relevância da testagem rápida também é sustentada por autores que demonstram o custo-efetividade no contexto do rastreamento pré-natal, embora apontem limitações estruturais para sua ampla implementação [19].
Outro eixo de monitoramento identificado refere-se ao uso de indicadores assistenciais e epidemiológicos relacionados à adequação do pré-natal, à qualidade do cuidado e à cobertura da Estratégia Saúde da Família. Evidencia-se a relação entre indicadores de qualidade do cuidado pré-natal e a ocorrência da sífilis em gestantes [18], enquanto a adequação do atendimento pré-natal e do diagnóstico é analisada como componente do monitoramento [20]. Além disso, a incidência da sífilis em gestantes associa-se à cobertura da Estratégia Saúde da Família, indicando a importância da organização da Atenção Primária à Saúde para o acompanhamento do agravo [21].
Além das estratégias baseadas em sistemas e indicadores, estudos com delineamento transversal ampliam a compreensão do monitoramento ao incorporar aspectos relacionados às práticas profissionais e à organização dos serviços. Destacam-se a capacitação de profissionais de saúde, o tratamento imediato e o seguimento dos casos como elementos que influenciam diretamente a qualidade do monitoramento [22], enquanto o acompanhamento do diagnóstico, do tratamento e da notificação é identificado como componente central da vigilância da sífilis em gestantes em nível estadual [17].
Apesar da diversidade de estratégias descritas, os estudos convergem quanto à presença de barreiras que comprometem o monitoramento efetivo da sífilis em gestantes. A subnotificação e a incompletude dos registros nos sistemas de informação são apontadas de forma recorrente como limitações importantes, reduzindo a confiabilidade dos dados e a capacidade analítica da vigilância epidemiológica [15,13,17]. A qualidade variável das informações e as fragilidades dos sistemas também são destacadas como entraves adicionais [14].
As desigualdades regionais e sociais emergem como barreiras estruturais transversais, influenciando tanto a ocorrência da sífilis em gestantes quanto o acesso ao pré-natal e a capacidade dos serviços em registrar e acompanhar os casos [18,16,21]. Estudos transversais acrescentam ainda barreiras relacionadas ao início tardio do pré-natal, às falhas no tratamento oportuno e às dificuldades no manejo dos parceiros sexuais, que comprometem o seguimento dos casos e a efetividade do monitoramento [20,22]. Evidencia-se que, mesmo diante de evidências de custo-efetividade, limitações estruturais do sistema de saúde dificultam a incorporação ampliada de estratégias de rastreamento rápido (19).
De forma sintética, os achados indicam que o monitoramento da sífilis em gestantes no Brasil baseia-se predominantemente na vigilância epidemiológica por meio de sistemas de informação e na testagem no pré-natal, sendo complementado por indicadores assistenciais e ações voltadas à qualificação da prática profissional. Contudo, persistem lacunas relacionadas à integração entre vigilância e assistência, à qualidade dos dados e às desigualdades regionais, o que sinaliza a necessidade de estratégias mais articuladas entre vigilância epidemiológica, Atenção Primária à Saúde e gestão do cuidado.
Os achados confirmam que o monitoramento está predominantemente fundamentado na vigilância epidemiológica por meio dos sistemas de informação em saúde, na testagem no pré-natal e no uso de indicadores assistenciais e epidemiológicos, evidenciando que a literatura sustenta a existência de estratégias estruturadas, porém operacionalizadas de forma desigual no território nacional. Assim, a hipótese de que o monitoramento depende de mecanismos formais consolidados, mas enfrenta fragilidades na sua implementação, é confirmada pelos resultados. A principal contribuição deste estudo consiste na sistematização crítica dessas estratégias e barreiras, oferecendo um panorama analítico que pode subsidiar a qualificação da vigilância e do cuidado pré-natal.
Como limitações, destaca-se a dependência de estudos baseados em dados secundários e a heterogeneidade metodológica das pesquisas incluídas, o que restringe a comparação direta entre contextos e pode refletir limitações dos próprios sistemas de informação analisados. Sugere-se que pesquisas futuras integrem abordagens quantitativas e qualitativas, articulando dados epidemiológicos com análises dos processos de trabalho em saúde, a fim de aprofundar a compreensão sobre a operacionalização do monitoramento nos serviços. O fortalecimento da integração entre vigilância epidemiológica e Atenção Primária à Saúde emerge como eixo estratégico para aprimorar a resposta ao agravo, indicando a necessidade de investigações que avaliem a sustentabilidade e a efetividade das ações de monitoramento em diferentes realidades do país.
Conflitos de Interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
Fontes de Financiamento
Não houve financiamento.
Contribuição dos autores
Concepção e desenho da pesquisa: Pires JA, Campos HLM; Obtenção de dados: Pires JA, Prestes YA; Análise e interpretação de dados: Pires JA, Silva TS; Redação do manuscrito: Pires JA, Silva TS; Revisão do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Campos HLM, Prestes YA.
Referências
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