RELATO DE EXPERIÊNCIA
A preceptoria no ensino superior em enfermagem: relato de experiência à luz da problematização freiriana
Leonardo Amarante1, João Nunes Maidana Júnior2, Sthefany Rosa da Silva3
1Faculdade Anhanguera, Porto Alegre, RS, Brasil
2Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil
3Faculdade Uniasselvi, Porto Alegre, RS, Brasil
Recebido em: 10 de Abril de 2026; Aceito em: 23 de Abril de 2026.
Correspondência: Leonardo Amarante, amarante.lbam@gmail.com
Como citar
Amarante L, Júnior JNM, Silva SR. A preceptoria no ensino superior em enfermagem: relato de experiência à luz da problematização freiriana. Enferm Bras. 2026;25(1):3118-3127 doi: 10.62827/eb.v25i1.4211.
Introdução: A formação em enfermagem no ensino superior ainda apresenta desafios na articulação entre teoria e prática. Nesse contexto, a preceptoria destaca-se como estratégia importante para integrar o ensino ao cuidado, especialmente quando orientada por abordagens reflexivas. Objetivo: Relatou-se a experiência de enfermeiros na preceptoria de estágios em enfermagem, analisando-a à luz da problematização proposta por Paulo Freire. Métodos: Estudo qualitativo, do tipo relato de experiência, com abordagem descritivo-reflexiva, realizado em estágios supervisionados de um curso de enfermagem no sul do Brasil. A análise baseou-se na observação das práticas e em registros em diário de campo. Resultados: A preceptoria mostrou-se organizada no cotidiano assistencial, com atuação do enfermeiro na supervisão e orientação dos estudantes. Inicialmente, predominou a execução técnica, seguida pela inserção de estratégias pedagógicas que estimularam maior participação e reflexão dos estudantes no cuidado. Conclusão: A preceptoria configura-se como um espaço formativo relevante, cuja efetividade depende da intencionalidade pedagógica do preceptor, contribuindo para o desenvolvimento de uma formação mais crítica e participativa.
Palavras-chave: Enfermagem; Educação em Enfermagem; Preceptoria; Aprendizagem.
Preceptorship in higher nursing education: an experience report based on freirean problematization
Introduction: Nursing education in higher education still faces challenges in integrating theory and practice. In this context, preceptorship stands out as an important strategy to connect learning with care, especially when guided by reflective approaches. Objective: To report the experience of nurses in preceptorship during clinical training in nursing, analyzing it through the perspective of Paulo Freire. Methods: Qualitative study, designed as an experience report with a descriptive-reflective approach, conducted in supervised clinical training in a nursing program in southern Brazil. The analysis was based on observation of practices and field diary records. Results: Preceptorship was organized within daily care activities, with nurses acting in supervision and guidance of students. Initially, technical execution predominated, followed by the inclusion of pedagogical strategies that encouraged greater student participation and reflection in care. Conclusion: Preceptorship is a relevant educational space, whose effectiveness depends on the pedagogical intentionality of the preceptor, contributing to a more critical and participatory training process.
Keywords: Nursing; Nursing Education; Preceptorship; Learning.
La preceptoría en la educación superior en enfermería: relato de experiencia desde la problematización freireana
Introducción: La formación en enfermería en la educación superior aún presenta desafíos en la articulación entre teoría y práctica. En este contexto, la preceptoría se destaca como una estrategia importante para integrar el aprendizaje con el cuidado, especialmente cuando se orienta por enfoques reflexivos. Objetivo: Relatar la experiencia de enfermeros en la preceptoría de prácticas en enfermería, analizándola desde la perspectiva de Paulo Freire. Métodos: Estudio cualitativo, tipo relato de experiencia, con enfoque descriptivo-reflexivo, desarrollado en prácticas supervisadas de un curso de enfermería en el sur de Brasil. El análisis se basó en la observación de las prácticas y en registros en diario de campo. Resultados: La preceptoría se organizó en el cotidiano asistencial, con actuación del enfermero en la supervisión y orientación de los estudiantes. Inicialmente predominó la ejecución técnica, seguida de la incorporación de estrategias pedagógicas que favorecieron mayor participación y reflexión en el cuidado. Conclusión: La preceptoría se configura como un espacio formativo relevante, cuya efectividad depende de la intencionalidad pedagógica del preceptor, contribuyendo a una formación más crítica y participativa.
Palabras-clave: Enfermería; Educación en Enfermería; Preceptoría; Aprendizaje.
A formação em enfermagem, especialmente no ensino superior, tem sido historicamente atravessada por tensões estruturais relacionadas à persistente dissociação entre teoria e prática, o que impõe desafios significativos à consolidação de processos formativos críticos, reflexivos e contextualizados [1,2]. Nesse cenário, a preceptoria configura-se como um dispositivo pedagógico estratégico, ao possibilitar a inserção do estudante em cenários reais de cuidado e favorecer a articulação entre o conhecimento científico e a prática assistencial no interior dos serviços de saúde [3,4].
O papel do enfermeiro preceptor, contudo, ultrapassa a dimensão técnico-assistencial, demandando competências pedagógicas, comunicacionais e relacionais que incidem diretamente sobre a qualidade do processo de ensino-aprendizagem. Evidências indicam que a atuação qualificada do preceptor, especialmente quando orientada por estratégias reflexivas e dialógicas, contribui de forma significativa para o desenvolvimento do raciocínio clínico, da autonomia e da capacidade de tomada de decisão dos estudantes em formação [5–8].
Apesar desse potencial formativo, a preceptoria ainda se configura como um campo tensionado, no qual coexistem distintas racionalidades pedagógicas. De um lado, persistem práticas centradas na reprodução de procedimentos, na fragmentação do cuidado e na verticalização das relações educativas; de outro, emergem iniciativas que buscam promover a problematização da realidade e a construção crítica do conhecimento [9–11]. Essas contradições são frequentemente intensificadas pela ausência de formação pedagógica específica para preceptores, bem como por condições institucionais que dificultam a consolidação de práticas educativas mais reflexivas e emancipatórias no cotidiano dos serviços [12,13].
Diante desse contexto, torna-se imprescindível compreender a preceptoria como uma prática educativa complexa, situada e atravessada por múltiplas determinações. Nessa perspectiva, a pedagogia de Paulo Freire, ao conceber a educação como prática de liberdade fundamentada no diálogo, na problematização da realidade e na construção coletiva do conhecimento, oferece um referencial teórico-metodológico potente para a análise crítica dos processos formativos em saúde [15,16].
Considerando que a preceptoria se desenvolve no interior de relações concretas, permeadas por saberes, valores e práticas institucionais, torna-se relevante problematizar em que medida essa atuação tem se configurado como espaço de reprodução de práticas tecnicistas ou, ao contrário, como possibilidade de construção da práxis, entendida como a articulação indissociável entre ação e reflexão crítica sobre a realidade [9,15].
Nesse movimento analítico, insere-se a problematização que orienta este estudo, ao interrogar como o enfermeiro preceptor desenvolve a preceptoria de estágios no ensino superior em enfermagem e de que modo essa prática pode ser compreendida à luz da perspectiva freiriana, considerando os limites e potencialidades apontados pela literatura [6,11].
Relatou-se a experiência de atuação do enfermeiro na preceptoria de estágios no ensino superior em enfermagem, analisando-a à luz da problematização proposta por Paulo Freire.
Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa e natureza descritivo-reflexiva, desenvolvido no contexto da preceptoria de estágios supervisionados no curso de graduação em Enfermagem de uma instituição de ensino superior localizada na região metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. A experiência foi conduzida por enfermeiro preceptor com atuação assistencial e docente, responsável pela supervisão direta dos estudantes nos cenários de prática, pela organização das atividades formativas e pela mediação do processo de ensino-aprendizagem.
A escolha da abordagem qualitativa fundamenta-se na sua capacidade de apreender processos, interações e significados produzidos no contexto da formação em saúde, especialmente em situações que envolvem práticas educativas articuladas ao cuidado17. Nessa perspectiva, o relato de experiência é compreendido como uma estratégia de produção de conhecimento situada, que possibilita descrever e interpretar criticamente práticas desenvolvidas em contextos específicos da formação em enfermagem.
A preceptoria foi desenvolvida em cenários reais de cuidado, envolvendo estudantes regularmente matriculados no ensino superior em enfermagem, inseridos em atividades práticas supervisionadas. As ações formativas foram organizadas de modo a contemplar a supervisão direta das atividades assistenciais, o acompanhamento contínuo das condutas realizadas pelos estudantes e a condução de momentos estruturados de orientação pedagógica, articulando ensino e serviço no cotidiano das práticas de cuidado.
A organização da preceptoria orientou-se pelos pressupostos da pedagogia problematizadora, tendo como eixo estruturante o diálogo, a problematização das situações vivenciadas nos cenários de prática e a valorização da participação ativa dos estudantes no processo formativo As atividades foram conduzidas de forma a favorecer a articulação entre conteúdos teóricos e experiências práticas, por meio da utilização de questionamentos orientadores, acompanhamento sistemático das práticas assistenciais e construção de espaços de interlocução pedagógica no próprio cenário de cuidado.
O desenvolvimento das atividades ocorreu de forma contínua ao longo do período de estágio, incluindo momentos de supervisão em campo e encontros destinados à orientação das atividades realizadas. As situações vivenciadas foram acompanhadas pelo preceptor, que realizou intervenções pedagógicas situadas, considerando as demandas emergentes do contexto assistencial e os níveis de autonomia dos estudantes [15,16].
A produção do material empírico que fundamenta este relato deu-se por meio da observação sistemática das atividades de estágio, com registros em diário de campo elaborados pelo preceptor. Esses registros contemplaram a descrição das atividades desenvolvidas, das interações estabelecidas no processo de ensino-aprendizagem e das situações vivenciadas nos cenários de prática, constituindo o corpus empírico do estudo17.
A análise do material foi conduzida a partir de uma perspectiva descritivo-reflexiva, orientada pelos fundamentos da pesquisa qualitativa em saúde17 e pelos pressupostos teóricos da pedagogia freiriana15. O processo analítico envolveu etapas articuladas de leitura exaustiva dos registros, identificação de núcleos de sentido e interpretação crítica dos elementos recorrentes da experiência. Esses núcleos foram analisados à luz da problematização freiriana, buscando compreender as mediações pedagógicas, as dinâmicas de ensino-aprendizagem e as tensões presentes no contexto da preceptoria, em consonância com a perspectiva de análise compreensiva proposta na pesquisa qualitativa em saúde [17].
Por se tratar de estudo baseado na experiência profissional do autor, sem coleta direta de dados com participantes ou identificação de sujeitos, não se configurou como pesquisa envolvendo seres humanos, conforme as normativas vigentes, não havendo necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Ainda assim, foram respeitados os princípios de confidencialidade, anonimato e integridade científica na elaboração do manuscrito.
Declara-se que ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas exclusivamente como apoio à organização textual, sem interferência na análise, interpretação dos dados ou construção dos resultados, em conformidade com as boas práticas éticas em publicação científica.
A experiência de preceptoria no estágio supervisionado evidenciou um processo formativo construído no cotidiano assistencial, no qual o enfermeiro preceptor assumiu papel central na condução das práticas e na mediação do processo de ensino-aprendizagem. Desde o início das atividades, sua atuação mostrou-se determinante para a organização das ações desenvolvidas e para a supervisão direta das condutas adotadas pelos estudantes, configurando-se como elemento estruturante da experiência formativa.
Nos momentos iniciais do estágio, observou-se que os estudantes apresentavam uma atuação predominantemente centrada na execução de procedimentos, acompanhada de insegurança frente à tomada de decisão e participação ainda restrita na organização do cuidado. Essa configuração evidenciou uma prática ainda orientada pelo fazer técnico, na qual o estudante assumia uma posição mais passiva no processo assistencial.
Com o avanço do estágio, identificou-se uma mudança progressiva nesse padrão de atuação, associada à incorporação de intervenções pedagógicas no próprio cenário de prática. Tais intervenções, caracterizadas pelo uso de questionamentos durante o cuidado, orientações situadas e acompanhamento contínuo das ações, favoreceram o deslocamento do estudante de uma posição predominantemente executora para uma participação mais ativa e reflexiva no cuidado prestado. Esse movimento ocorreu de forma integrada às atividades assistenciais, sem ruptura com o fluxo do serviço.
As situações cotidianas do cuidado, incluindo a realização de procedimentos, a organização das demandas do setor e o acompanhamento de pacientes, constituíram-se como espaços privilegiados de interação entre preceptor e estudantes. Nesses momentos, a solicitação de justificativas para as condutas adotadas, a identificação de prioridades assistenciais e a explicitação dos fundamentos das ações contribuíram para a mobilização do raciocínio clínico e para a ampliação da compreensão dos estudantes acerca do cuidado.
À medida que o estágio se desenvolvia, observou-se maior envolvimento dos estudantes na dinâmica do cuidado, incluindo participação mais ativa na organização das ações assistenciais, na execução de procedimentos sob supervisão e no acompanhamento longitudinal dos pacientes. Esse processo evidenciou uma ampliação progressiva da autonomia discente, associada à maior integração entre conhecimento teórico e prática clínica.
A atuação do preceptor também se destacou pela mediação constante entre as demandas do serviço de saúde e os objetivos educacionais do estágio. Esse movimento envolveu orientações relacionadas aos fluxos institucionais, às rotinas assistenciais e à organização do trabalho em equipe, evidenciando a complexidade do papel do preceptor na articulação entre ensino e serviço.
Além disso, foram identificados momentos específicos destinados à orientação dos estudantes, nos quais o preceptor abordava aspectos relacionados ao cuidado, ao desempenho nas atividades e à condução das práticas assistenciais. Esses momentos ocorreram tanto de forma planejada quanto emergente, a partir das demandas do próprio contexto assistencial, indicando a natureza dinâmica do processo formativo.
Os registros em diário de campo evidenciaram a frequência e a continuidade das interações entre preceptor e estudantes ao longo do estágio, envolvendo orientações, esclarecimentos e acompanhamento das atividades desenvolvidas. Essas interações configuraram a base relacional da preceptoria, sustentando o processo de ensino-aprendizagem no cenário de prática.
De modo geral, a experiência demonstrou que a preceptoria se estruturou a partir da inserção dos estudantes no cotidiano assistencial, da supervisão direta das práticas e da mediação contínua do processo de ensino-aprendizagem pelo enfermeiro preceptor. Esse processo evidenciou a centralidade do preceptor na organização da formação clínica e o potencial da preceptoria como espaço de construção progressiva da autonomia e do raciocínio crítico dos estudantes.
A análise da experiência de preceptoria evidencia que sua potência formativa não se restringe à inserção do estudante em cenários reais de prática, mas se constitui, sobretudo, na forma como essa inserção é pedagogicamente mediada [5,6]. Em consonância com os resultados deste estudo, observa-se que a presença do preceptor, quando orientada por intencionalidade pedagógica, assume papel estruturante na organização do processo de ensino-aprendizagem, deslocando a experiência do campo assistencial de um espaço meramente operacional para um espaço efetivamente formativo. Embora a literatura reconheça a preceptoria como elemento central na formação em enfermagem [2], os achados reforçam que sua efetividade está diretamente relacionada à qualidade da mediação exercida, especialmente no que se refere à promoção do diálogo, da reflexão e da participação ativa dos estudantes [5,6].
Nesse contexto, evidencia-se uma tensão persistente entre modelos formativos distintos, também identificada nos resultados analisados. De um lado, mantêm-se práticas orientadas pela reprodução técnica, expressas na centralidade inicial dos estudantes na execução de procedimentos; de outro, emergem movimentos de construção crítica do conhecimento, favorecidos pela mediação pedagógica do preceptor [9,11]. Essa dualidade, amplamente descrita na literatura, evidencia que a permanência de abordagens tecnicistas no ensino clínico não é superada apenas por mudanças teóricas, mas exige transformação nas práticas educativas concretas [9,11]. Assim, a inserção do estudante no campo de prática, por si só, não garante uma formação crítica, sendo a intencionalidade pedagógica do preceptor elemento decisivo para a configuração de experiências formativas significativas [5,6].
Os resultados deste estudo indicam que intervenções pedagógicas baseadas em questionamento, acompanhamento contínuo e orientação situada favorecem o deslocamento do estudante de uma posição passiva para uma atuação mais ativa no cuidado. Tal movimento encontra respaldo em evidências que apontam o papel do preceptor como facilitador da aprendizagem significativa, capaz de transformar situações cotidianas em oportunidades formativas [7,8]. Nesse sentido, a prática de questionar, solicitar justificativas e estimular a reflexão sobre as condutas adotadas mostrou-se central para a mobilização do raciocínio clínico e para a ampliação da autonomia discente. No entanto, conforme apontado na literatura, essa atuação não se estabelece de forma espontânea, dependendo do desenvolvimento de competências pedagógicas específicas, ainda pouco exploradas na formação do enfermeiro [13].
À luz da pedagogia de Paulo Freire, tais achados podem ser compreendidos como expressão da tensão entre práticas educativas bancárias e práticas problematizadoras. A predominância inicial de uma atuação centrada na execução de tarefas evidencia traços do modelo bancário, no qual o conhecimento é transmitido de forma verticalizada, limitando a autonomia do estudante [15]. Diante disso, a ausência de diálogo efetivo e de problematização das situações vivenciadas tende a reforçar esse modelo, restringindo a formação à dimensão técnica. Por outro lado, a incorporação de estratégias dialógicas e reflexivas, conforme observado no desenvolvimento da preceptoria, indica a possibilidade de deslocamento em direção a uma prática educativa problematizadora, na qual o estudante se torna sujeito ativo do processo de aprendizagem [15,16].
Nessa perspectiva, a preceptoria orientada pela problematização evidencia seu potencial para favorecer processos formativos mais críticos e participativos, nos quais o conhecimento é construído a partir da reflexão sobre a prática. Estratégias pedagógicas interativas e reflexivas, como as identificadas neste estudo, têm sido associadas ao desenvolvimento do raciocínio clínico, da autonomia e da capacidade de tomada de decisão no contexto da formação em enfermagem [5,6], reforçando a importância de práticas educativas que ultrapassem a lógica da mera reprodução de procedimentos.
Outro aspecto relevante refere-se à integração entre ensino e serviço, evidenciada tanto nos resultados quanto na literatura como elemento estruturante da formação em saúde [3,4]. A atuação do preceptor como mediador entre essas dimensões revela a complexidade de seu papel, que envolve a articulação entre demandas assistenciais e objetivos educacionais. Entretanto, essa articulação ocorre em contextos frequentemente marcados por limitações institucionais, como sobrecarga de trabalho e restrições organizacionais, que impactam diretamente o desenvolvimento das práticas educativas [9,10].
Em síntese, a análise reforça que a preceptoria se configura como prática situada, atravessada por fatores organizacionais, institucionais e subjetivos que influenciam sua efetividade. Aspectos como insuficiência de formação pedagógica, ausência de reconhecimento institucional e condições adversas de trabalho são apontados na literatura como elementos que comprometem o desempenho do preceptor e a qualidade do processo formativo [9,10], o que também se articula com as tensões identificadas na experiência analisada.
Dessa forma, a preceptoria não pode ser compreendida como prática neutra ou meramente operacional, mas como espaço de disputa entre diferentes concepções de ensino e formação profissional. A incorporação de referenciais críticos permite tensionar essas concepções, deslocando o foco da transmissão de conteúdos para a construção coletiva do conhecimento, mediada pela reflexão crítica sobre a prática [15,16].
Por fim, os achados deste estudo indicam que a consolidação de uma preceptoria orientada pela problematização exige investimentos tanto na formação pedagógica dos preceptores quanto na qualificação dos cenários de prática. Tal movimento é fundamental para sustentar processos formativos que ultrapassem a lógica da reprodução e favoreçam a construção de sujeitos críticos, reflexivos e implicados com o cuidado em saúde [4,13].
A preceptoria deve ser compreendida como um espaço de produção de sentidos no processo formativo em enfermagem, no qual se tornam possíveis tensionamentos, ressignificações e avanços na formação profissional. Como implicação, destaca-se a necessidade de investimento na formação pedagógica dos preceptores e na qualificação dos cenários de prática, de modo a sustentar processos educativos comprometidos com a construção crítica do conhecimento e com a transformação das práticas em saúde.
Os achados indicam que a preceptoria pode assumir diferentes sentidos no processo formativo, oscilando entre práticas centradas na reprodução técnica e abordagens orientadas à construção crítica do conhecimento. Nesse sentido, demonstra-se que a simples inserção do estudante no cenário de prática não é suficiente para garantir uma formação crítica, sendo necessária a incorporação de estratégias pedagógicas que promovam o diálogo, a problematização e a participação ativa dos estudantes.
Quando orientada por esses princípios, a preceptoria amplia sua potência formativa, favorecendo o desenvolvimento da autonomia, do raciocínio crítico e do compromisso com o cuidado em saúde. Por outro lado, quando restrita à supervisão técnica e à reprodução de rotinas, tende a limitar-se à dimensão operacional do ensino, reduzindo suas possibilidades formativas.
A experiência analisada permite compreender a preceptoria no ensino superior em enfermagem como um espaço formativo complexo, no qual se articulam dimensões assistenciais, pedagógicas e institucionais, exigindo do enfermeiro preceptor não apenas domínio técnico, mas, sobretudo, competência para mediar processos educativos no interior da prática. Evidencia-se que a qualidade da formação desenvolvida está diretamente relacionada à forma como essa mediação é conduzida, destacando a centralidade da intencionalidade pedagógica na configuração do processo de ensino-aprendizagem.
Conflitos de Interesse
Os autores declaram não haver conflito de interesse.
Fontes de Financiamento
Não houve financiamento.
Contribuição dos autores
Concepção e desenho da pesquisa: Amarante L, Júnior JNM, Silva SR; Redação do manuscrito: Amarante L, Júnior JNM, Silva SR; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Amarante L, Júnior JNM, Silva SR.
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