REVISÃO
Satisfação do enfermeiro no ambiente assistencial e seus fatores correlacionados: revisão integrativa
Camila Soares dos Santos1, Rosana Carolina Silva1, Cristina Honório da Silva1, Maria Eduarda Heib1, Sarah Mossolini Lewe1, Rulio Glecias Marçal da Silva1
1Faculdade Morgana Potrich (FAMP), Mineiros, GO, Brasil
Recebido em: 18 de Novembro de 2025; Aceito em: 2 de Dezembro de 2026.
Correspondência: Rulio Glecias Marçal da Silva, rulio.rgms@gmail.com
Como citar
Santos CS, Silva RC, Silva CH, Heib ME, Lewe SM, Silva RGM. Satisfação do enfermeiro no ambiente assistencial e seus fatores correlacionados: revisão integrativa. Enferm Bras. 2025;24(5):2939-2950. doi: 10.62827/eb.v24i5.4105
Introdução: A enfermagem ocupa posição central no sistema de saúde, constituindo-se como a principal ponte entre o cuidado técnico e o cuidado humano. O cotidiano desses profissionais é permeado por sobrecarga física e emocional, múltiplos vínculos empregatícios e reconhecimento ainda insuficiente, fatores que influenciam diretamente sua satisfação no trabalho. Objetivo: Descreveu-se o grau de satisfação dos enfermeiros que atuam na assistência e seus fatores correlacionados. Métodos: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada a partir de publicações em língua portuguesa entre os anos de 2019 e 2024, nas bases LILACS e BDENF. Resultados: Após o processo de triagem, dez estudos compuseram a amostra final, esses estudos permitiram identificar três eixos centrais, que são; os fatores de satisfação profissional, os fatores de insatisfação profissional e os impactos da satisfação e da insatisfação. Conclusão: A valorização do enfermeiro e a melhoria das condições laborais não se configuram apenas como medidas de bem-estar individual, mas como requisitos estratégicos para garantir qualidade assistencial, segurança do paciente e sustentabilidade dos serviços de saúde.
Palavras-chave: Enfermagem; Engajamento no Trabalho; Qualidade da Assistência à Saúde; Saúde Ocupacional.
Nurse satisfaction in the healthcare environment and its related factors: integrative review
Introduction: Nursing occupies a central position in the healthcare system, constituting the main bridge between technical care and human care. The daily lives of these professionals are permeated by physical and emotional overload, multiple employment relationships, and insufficient recognition, factors that directly influence their job satisfaction. Objective: To describe the degree of satisfaction of nurses working in healthcare and its related factors. Methods: This is an integrative literature review based on publications in Portuguese between 2019 and 2024 in the LILACS and BDENF databases. Results: After the screening process, ten studies comprised the final sample. These studies allowed us to identify three central axes, which are: factors of professional satisfaction, factors of professional dissatisfaction, and the impacts of satisfaction and dissatisfaction. Conclusion: The valorization of nurses and the improvement of working conditions are not only measures of individual well-being, but also strategic requirements to ensure quality care, patient safety, and the sustainability of health services.
Keywords: Nursing; Work Engagement; Quality of Health Care; Occupational Health.
La satisfacción del personal de enfermería en el entorno asistencial y sus factores relacionados: revisión integradora
Introducción: La enfermería ocupa una posición central en el sistema sanitario, constituyendo el principal puente entre la atención técnica y la atención humana. El día a día de estos profesionales está marcado por la sobrecarga física y emocional, las múltiples relaciones laborales y un reconocimiento aún insuficiente, factores que influyen directamente en su satisfacción laboral. Objetivo: Se describió el grado de satisfacción de los enfermeros que trabajan en la asistencia y sus factores correlacionados. Métodos: Se trata de una revisión integradora de la literatura, realizada a partir de publicaciones en lengua portuguesa entre los años 2019 y 2024, en las bases LILACS y BDENF. Resultados: Tras el proceso de selección, diez estudios compusieron la muestra final, lo que permitió identificar tres ejes centrales, que son: los factores de satisfacción profesional, los factores de insatisfacción profesional y los impactos de la satisfacción y la insatisfacción. Conclusión: La valoración del personal de enfermería y la mejora de las condiciones laborales no solo constituyen medidas de bienestar individual, sino requisitos estratégicos para garantizar la calidad de la asistencia, la seguridad del paciente y la sostenibilidad de los servicios de salud.
Palabras-clave: Enfermería; Compromiso en el Trabajo; Calidad de la Atención de Salud; Salud Laboral.
A área da saúde depende de diversos profissionais em atuação multidisciplinar e que todos eles possuem um mesmo objetivo, promover o cuidado. Nesse contexto, a enfermagem atua como parte essencial da cadeia de transformação de vidas que ocorre nos cuidados diários, principalmente por meio da valorização das pessoas, dos valores sociais e humanos e do processo de humanização. Por essa razão, a presença da enfermagem se faz indispensável em praticamente todos os espaços da saúde atenção básica, hospitais, instituições privadas, empresas, entre outros [1].
Esta socialização e demanda exige ambientes de trabalho seguros e acolhedores, além de condições adequadas para o cuidado com a saúde mental associada ao trabalho. Os profissionais de enfermagem frequentemente enfrentam longas jornadas, múltiplos vínculos empregatícios e remuneração incompatível com o esforço exigido, o que fragiliza o bem-estar psicológico e compromete tanto a vida pessoal quanto a profissional [2]. Nesse cenário, a satisfação no trabalho torna-se elemento fundamental, pois está relacionada ao prazer em exercer a profissão, à motivação, ao bem-estar e à sensação de autorrealização, fatores que influenciam diretamente a qualidade da assistência prestada [3].
Quando o enfermeiro encontra satisfação em seu ambiente laboral, fortalece sua saúde mental e melhora a experiência do paciente, resultando em um cuidado mais motivado e humanizado. Por outro lado, a ausência dessa satisfação pode comprometer a postura profissional, reduzir a produtividade e afetar a qualidade dos serviços. Essa percepção é moldada por diferentes fatores, como o clima organizacional, as políticas institucionais, as exigências da função e a remuneração, que podem atuar tanto como limitadores quanto como incentivadores da satisfação. Diante disso, é essencial que os enfermeiros busquem meios de alcançar maior satisfação, seja por meio de cuidados com a saúde mental, de pactos laborais mais justos, de evolução pessoal ou da luta coletiva por condições adequadas de trabalho [4].
Pesquisas demonstram a relevância desse tema. Em estudo realizado em 2020 com 49 enfermeiros de um bloco cirúrgico de hospital privado, 87,8% apontaram a interação como o principal componente da satisfação, enquanto 95,9% destacaram o status profissional como causa predominante [5]. Outro estudo, conduzido em 2019 com 61 enfermeiros de unidades de saúde mental no Rio Grande do Sul, revelou que 72,1% consideraram a relação em equipe como o fator mais determinante para a satisfação [6]. Já em 2017, uma pesquisa com 15 enfermeiros de uma unidade de emergência do Ceará identificou que 60% consideravam a ajuda ao próximo como o principal motivo de satisfação, mas 66,6% relataram insatisfação devido ao desgaste físico e emocional [7]. Esses achados se somam a investigações sobre o mal-estar ocupacional, que relacionam sintomas de depressão, ansiedade, estresse e síndrome de burnout – especialmente exaustão emocional e despersonalização – ao exercício da profissão [6,7].
Por isso, torna-se essencial colocar o enfermeiro como sujeito de investigações, a fim de compreender a satisfação profissional, uma vez que ela impacta diretamente tanto a qualidade da assistência quanto a saúde desses trabalhadores. Descreveu-se o grau de satisfação dos enfermeiros que atuam na assistência e seus fatores correlacionados.
Revisão integrativa da literatura uma abordagem amplamente utilizada na prática baseada em evidências, especialmente na área da Enfermagem. O objetivo principal dessa metodologia é proporcionar uma compreensão detalhada de um tema específico, fundamentada em pesquisas anteriores [8].
A revisão seguiu seis etapas principais:
1. Definição do tema e formulação da questão norteadora;
2. Estabelecimento dos critérios para inclusão e exclusão dos estudos;
3. Identificação dos estudos selecionados;
4. Categorização dos estudos selecionados;
5. Análise e interpretação dos achados;
6. Apresentação dos resultados obtidos [9].
A questão norteadora da pesquisa definida foi: “os enfermeiros que atual na assistência estão satisfeitos? Se sim, quais os fatores corroboram para essa satisfação? Caso não estejam, que elementos colaboram para essa insatisfação?”.
Os critérios de inclusão estabelecidos foram estudos que envolvessem enfermeiros assistenciais em diferentes contextos de atuação e que tivessem como metodologias: revisão integrativa, revisão sistemáticas, artigos originais, publicados entre os anos de 2019 a 2024, no idioma português e de livre acesso. Estabeleceram-se como critérios de exclusão estudos que envolvessem cargos de gestão e/ou de caráter metodológico: dissertações, teses, relatos de caso, relatos de experiência, estudos de revisões narrativas, bem como materiais duplicados e/ou que não disponíveis na íntegra.
As bases de dados eletrônicas utilizadas foram: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), no Banco de Dados em Enfermagem - Bibliografia Brasileira (BDENF). As buscas foram realizadas durante os meses de agosto e setembro de 2025, utilizando-se descritores controlados (“Enfermagem”; “Engajamento no Trabalho”; “Qualidade da Assistência à Saúde”; “Saúde Ocupacional”), disponíveis nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH). Os descritores foram combinados entre si, a partir dos operadores booleanos AND e OR.
Para selecionar os artigos que atendiam aos critérios de inclusão, o processo começou com a exclusão dos artigos duplicados. Em seguida, foi realizada a triagem em três etapas: leitura do título, leitura do resumo e, por fim, leitura integral do artigo. Inicialmente, foram identificados 210 artigos, dos quais foram excluídos da seguinte forma: 43 devido à duplicidade, 130 após a análise do título, 23 após a leitura do resumo e 4 após a leitura completa.
Assim, a amostra final foi composta por dez artigos. A síntese das buscas realizadas nas bases de dados para a seleção dos artigos pode ser visualizada na Figura 1.
Para classificar o nível de evidência (NE) dos artigos, utilizou-se a escala Rating System for the Hierarchy of Evidence for Intervention/Treatment Questions, que classifica as evidências em:
I. Revisões sistemáticas ou meta-análises de ensaios clínicos randomizados;
II. Ensaios clínicos randomizados;
III. Ensaios clínicos não randomizados;
IV. Estudos de caso-controle e coorte;
V. Revisões sistemáticas de estudos descritivos e qualitativos;
VI. Estudos descritivos ou qualitativos;
VII. Opinião de especialistas ou relatórios de autoridades [10].

Figura 1 - Fluxograma de pesquisa e seleção dos estudos.
Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 10 estudos, que compuseram a amostra final. Os trabalhos foram organizados em quadro sinóptico contendo informações sobre ano de publicação, periódico, autores, objetivos, delineamento metodológico e principais resultados (Quadro 1).
Quadro 1 - Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa em relação a autores, ano, título, periódico, objetivo e nível de evidência, publicados entre 2019 e 2024. Mineiros-GO, 2025.
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Autor(es)/ano |
Título |
Periódico |
Objetivo |
Nível de evidência |
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Alonso et al. (2024) |
Interface entre valorização, reconhecimento e satisfação do trabalho de enfermeiros da Atenção Primaria à Saúde |
Journal Nursing |
Identificar a interface entre valorização, reconhecimento e satisfação advindas das percepções de enfermeiros. |
IV |
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Guareschi et al. (2024) |
Satisfação da equipe de enfermagem que atua em hospital pediátrico e neonatal. |
Contribuciones a Las Ciencias Sociales |
Analisar o nível de satisfação da equipe de enfermagem que atua em hospital pediátrico e neonatal. |
VI |
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Rodrigues; Gaspar; Lucas (2022) |
A Satisfação Profissional dos Enfermeiros em Contexto Hospitalar: Revisão Scoping |
New Trends in Qualitative Research |
Analisar a evidência científica sobre a Satisfação Profissional dos enfermeiros em contexto hospitalar. |
VI |
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Santos et al. (2021) |
Satisfação profissional do enfermeiro no ambiente da unidade de terapia intensiva. |
Baiana de Enfermagem |
Analisar a concepção do enfermeiro acerca da satisfação profissional no ambiente da Unidade de Terapia Intensiva. |
VI |
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Kameo; Rocha; Santos (2020) |
Perfil e satisfação profissional do enfermeiro ncologista: retrato de Sergipe |
Enferm. Foco |
Traçar o perfil do enfermeiro e analisar seu nível de satisfação no trabalho em oncologia. |
VI |
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Gouveia; Ribeiro; Carvalho (2020) |
Satisfação profissional de enfermeiros que atuam no bloco cirúrgico de um hospital de excelência. |
Sobecc. |
Analisar e comparar o índice de satisfação profissional de enfermeiros do bloco cirúrgico. |
VI |
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Cordeiro et al. (2019) |
Satisfação profissional de enfermeiros em uma unidade de emergência. |
Nursing |
Investigar a satisfação profissional de enfermeiros em uma unidade de emergência de um hospital da Zona Norte do Ceará. |
VI |
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Silva et al. (2019) |
Engagement e satisfação dos enfermeiros do pré-hospitalar. |
Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental. |
Identificar os níveis de engagement e de satisfação do trabalho dos enfermeiros que trabalham nas ambulâncias Suporte Imediato de Vida (SIV) e a sua variação de função de variáveis sociodemográficas e laborais. |
VI |
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Oliveira e Pedraza (2019) |
Contexto de trabalho e satisfação profissional de enfermeiros que atuam na Estratégia Saúde da Família. |
Saúde Debate |
Avaliar o contexto de trabalho e a satisfação profissional de enfermeiros que atuam na Estratégia Saúde da Família no estado da Paraíba. |
VI |
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Oliveira et al. (2019) |
Satisfação profissional e sobrecarga de trabalho de enfermeiros da área de saúde mental. |
Ciência & Saúde Coletiva |
Avaliar a satisfação profissional e a sobrecarga de trabalho dos enfermeiros atuantes em serviços de saúde mental e realizar uma comparação em relação aos demais profissionais do serviço. |
VI |
Fonte: Autores (2025).
Os estudos perfizeram uma trajetória entre os anos 2019 e 2024, publicados em diferentes periódicos, totalizando 10 periódicos. Quanto à abordagem metodológica dos estudos, houve pesquisas dos tipos: descritivo-exploratório (20%); revisão scoping da literatura (10%); estudo epidemiológico, descritivo e transversal (60%); qualitativo, descritivo e exploratório (10%).
A análise do material permitiu identificar três eixos centrais. O primeiro correspondeu aos fatores de satisfação profissional, nos quais se destacaram o reconhecimento pelo trabalho desempenhado, as relações interpessoais positivas na equipe, a autonomia no exercício das práticas de cuidado, a oportunidade de crescimento e capacitação profissional e o sentimento de contribuir para o bem-estar do paciente. Foram mencionados, ainda, ambientes de trabalho caracterizados por colaboração e liderança participativa.
O segundo eixo reuniu os fatores de insatisfação profissional, dentre os quais sobressaíram a sobrecarga de atividades, a baixa remuneração, a escassez de recursos humanos e materiais, a alta rotatividade de profissionais, as jornadas prolongadas e a necessidade de múltiplos vínculos empregatícios. Também foram relatados desgaste físico e emocional, dificuldades de comunicação entre turnos, desorganização no fluxo de atendimento e reduzida participação dos enfermeiros nas decisões institucionais.
O terceiro eixo correspondeu aos impactos da satisfação e da insatisfação. Os estudos relataram associação entre satisfação profissional e melhora na qualidade da assistência, humanização do cuidado e redução de erros assistenciais. Em contrapartida, a insatisfação foi relacionada a adoecimento ocupacional, incluindo estresse, ansiedade, depressão e síndrome de burnout, com repercussões negativas tanto na vida pessoal quanto no desempenho profissional.
A partir dos resultados, foram formados três eixos: fatores de satisfação profissional; fatores de insatisfação profissional; impactos da satisfação e da insatisfação para o enfermeiro.
Fatores de satisfação profissional
Os estudos revelaram que a satisfação profissional dos enfermeiros está fortemente relacionada ao reconhecimento do trabalho desempenhado, às relações interpessoais positivas dentro da equipe, à autonomia para a tomada de decisões e ao acesso a oportunidades de capacitação. Esses aspectos aparecem de maneira semelhante na literatura ao destacarem que não basta a remuneração adequada: é necessário que o profissional se perceba valorizado, tenha condições favoráveis para exercer suas funções e encontre possibilidades de crescimento ao longo da carreira [11].
A análise mostra ainda que ambientes organizacionais que estimulam a cooperação e a liderança participativa tendem a ser percebidos como motivadores, repercutindo na forma como o enfermeiro se envolve com o trabalho. Esse dado converge com outros autores, que reforçam a importância da autonomia do profissional e da tecnologia adequada no ambiente laboral [12]. Quando há equilíbrio entre demandas e recursos, o resultado é um maior comprometimento com a humanização da assistência, fortalecendo o vínculo com o paciente e diminuindo a ocorrência de conflitos no ambiente de trabalho [1].
Além disso, a literatura sugere que a satisfação também está atrelada a fatores subjetivos, como o sentimento de contribuir para o bem-estar do paciente e de exercer um papel socialmente relevante [4].
Alguns autores ainda associam ainda a satisfação do enfermeiro com o relacionamento construído com os pacientes. Essa percepção de propósito reforça a motivação intrínseca, funcionando como contraponto às adversidades diárias. Portanto, pode-se afirmar que a satisfação na enfermagem não é um fenômeno isolado, mas fruto de um conjunto de condições objetivas (estrutura, remuneração, recursos) e subjetivas (valorização, reconhecimento e propósito) [13].
Fatores de insatisfação profissional
Em contraste, os resultados apontaram elementos de forte impacto negativo sobre a satisfação, como a sobrecarga de trabalho, a baixa remuneração, a escassez de recursos e a alta rotatividade de profissionais. Esses fatores foram destacados também por parte dos autores, que associaram tais condições à queda de motivação e ao aumento da rotatividade no setor, prejudicando a estabilidade das equipes e a qualidade do atendimento prestado, além da cobrança dos superiores e da falta de suporte e tempo livre [7].
Outro ponto relevante é a multiplicidade de vínculos empregatícios, que aparece como consequência da remuneração insuficiente e da necessidade de complementar renda. Os estudos ainda evidenciaram que, quanto maior o índice de estresse da equipe de enfermagem, menor é o nível de engajamento com o trabalho, considerando novamente a insatisfação como efeito da sobrecarga. Nesse sentido, a insatisfação não é apenas um reflexo individual de descontentamento, mas um problema estrutural que atravessa toda a organização do trabalho em saúde [14].
Os estudos revelam, ainda, a falta de recursos disponíveis e baixa remuneração são predominantemente fatores causam a insatisfação, de modo que o status profissional não é capaz de garantir a satisfação [5]. Esse cenário não só fragiliza a atuação do enfermeiro, como também gera repercussões coletivas, uma vez que equipes sobrecarregadas tendem a apresentar maior índice de falhas, absenteísmo e desmotivação. Portanto, os achados reforçam o entendimento de que a insatisfação está profundamente enraizada nas condições estruturais de trabalho, o que exige políticas de valorização e reorganização do setor.
Impactos da satisfação e da insatisfação para o enfermeiro
O terceiro eixo da análise mostrou que a satisfação profissional está associada à melhora da qualidade da assistência, à humanização do cuidado e à redução de erros assistenciais. Esses resultados encontram respaldo em diferentes estudos que destacam como ambientes saudáveis de trabalho se refletem na segurança do paciente e na efetividade do tratamento.
Deste modo, a investigação mostrou que a satisfação do enfermeiro não se restringe a um aspecto subjetivo de contentamento, mas exerce influência direta sobre a assistência em saúde. Quando o ambiente laboral oferece condições adequadas, respeito à autonomia e suporte institucional, sobretudo em momentos de maior exigência emocional, os profissionais tendem a demonstrar maior dedicação e sensibilidade no cuidado. Esse cenário repercute em práticas mais seguras, redução de intercorrências e fortalecimento do vínculo com pacientes e familiares, traduzindo a satisfação em ganhos concretos para a qualidade do serviço e para a humanização do atendimento [3].
Em contrapartida, quando predomina a insatisfação, os impactos recaem diretamente sobre a saúde do profissional, levando a quadros de estresse, ansiedade, depressão e, em casos mais graves, ao desenvolvimento da síndrome de burnout [11].
Ainda, o cotidiano do enfermeiro, marcado por situações de alta pressão e demandas sucessivas, favorece o surgimento de emoções negativas como medo, angústia, insegurança e sensação de impotência. Quando esses sentimentos se acumulam, o equilíbrio emocional do profissional é abalado e a prática assistencial tende a ser afetada, seja pela perda de concentração, pela dificuldade em manter a empatia ou pela redução da energia necessária para conduzir o cuidado de forma qualificada [6]. Nesse cenário, o impacto ultrapassa o nível individual e repercute na equipe e na assistência ao paciente.
A intensificação da carga laboral aprofunda ainda mais esse processo, pois o excesso de tarefas não gera apenas cansaço físico, mas também desgaste psicológico que pode evoluir para adoecimento. A presença contínua de pressões estruturais e emocionais alimenta um ciclo de esgotamento, em que o profissional perde motivação, aumenta a suscetibilidade a falhas e se torna mais vulnerável a afastamentos [6].
Essa dinâmica evidencia que discutir satisfação e insatisfação no trabalho de enfermagem não é algo secundário, mas sim essencial para compreender os limites da prática segura e para pensar estratégias que protejam a saúde do trabalhador e a qualidade do cuidado.
Esses impactos ultrapassam o âmbito individual, pois interferem na dinâmica das equipes e na sustentabilidade dos serviços de saúde. Profissionais adoecidos ou desmotivados tornam-se mais suscetíveis a afastamentos, absenteísmo e até abandono da profissão, o que retroalimenta o ciclo de sobrecarga e insatisfação entre aqueles que permanecem. Nesse sentido, compreender os efeitos da satisfação e da insatisfação significa reconhecer que a qualidade do cuidado prestado está diretamente ligada ao bem-estar do trabalhador que o executa.
Está pesquisa envolveu enfermeiros que atuam no campo da assistência, por isso, possui limitações, já que não envolveu a satisfação e nem os fatores correlacionados em outras áreas de atuação do profissional, tais como a gestão, a educação, o empreendedorismo, entre outras. Dessa forma, abre e sugere-se pesquisas que contemplem outras áreas de atuação do enfermeiro, a fim de observar e compreender melhor a satisfação profissional e suas nuances.
A satisfação profissional em enfermagem mostrou-se como um fator que ultrapassa o campo pessoal e interfere diretamente na qualidade do cuidado. Quando o enfermeiro encontra respaldo em condições de trabalho adequadas, reconhecimento pelo que faz e oportunidades de crescimento, a prática torna-se mais humanizada, segura e produtiva. Nesses casos, o vínculo com o paciente se fortalece e a assistência ganha em eficiência, refletindo não apenas no bem-estar do trabalhador, mas também na confiança e na segurança de quem é atendido.
Por outro lado, a insatisfação, gerada por jornadas extensas, salários insuficientes, múltiplos vínculos e ausência de recursos, acarreta desgaste físico e emocional que compromete a atuação do profissional. Esse cenário evidencia a necessidade de atenção às condições de trabalho da enfermagem, uma vez que valorizar esses profissionais significa assegurar serviços de saúde mais estáveis e de maior qualidade. Promover satisfação não é apenas uma questão individual, mas um requisito coletivo para sustentar o cuidado seguro e eficaz dentro das instituições.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflito de interesse.
Fontes de financiamento
Financiamento próprio.
Contribuição dos autores
Concepção e desenho da pesquisa: Silva RGM, Silva CH; Obtenção de dados: Santos CS, Silva RC; Análise e interpretação de dados: Silva CH, Santos CS, Silva RC, Lewe SM; Redação do manuscrito: Silva RGM, Santos CS, Lewe SM; Revisão do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Silva RGM, Silva RC, Lewe SM.
Referências
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3. Guareschi APDF, Castro ADRV, Samartini RS, Marques BM. Satisfação da equipe de enfermagem que atua em hospital pediátrico e neonatal. Contrib Cienc Soc. 2024;17(5):1–20. Disponível em: https://ojs.revistacontribuciones.com/ojs/index.php/clcs/article/view/6384/4438
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5. Gouveia LHDA, Ribeiro VF, Carvalho RD. Satisfação profissional de enfermeiros que atuam no bloco cirúrgico de um hospital de excelência. Rev SOBECC. 2020;25(1):33–41. Disponível em: https://revista.sobecc.org.br/sobecc/article/view/574/pdf
6. Oliveira JF, Santos AM, Primo LS, Silva MRS, Domingues ES, Moreira FP, et al. Satisfação profissional e sobrecarga de trabalho de enfermeiros da área de saúde mental. Cienc Saude Colet. 2019;24(7):2593–9. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/NWhbQ5yQmz677KBfp7P7Lbm/?format=pdf&lang=pt
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